Economistas e outros especialistas divulgaram um manifesto, nesta sexta-feira (30), denunciando a pressĂŁo do mercado financeiro para que o governo eleito adote um programa de corte de gastos com a finalidade de estabilizar a dĂvida pĂşblica.

O texto pede novo regime fiscal no paĂs, menos rĂgido do que o atual arcabouço, alĂ©m da mudança na meta de inflação e da tributação dos ricos no lugar de corte em despesas sociais.
Assinado por 50 profissionais, o documento afirma que a Faria Lima – avenida no centro de SĂŁo Paulo, sede dos principais bancos de investimentos, corretoras, escritĂłrios, que representa o mercado financeiro do paĂs – quer impor um “terceiro turno” presidencial com objetivo de fazer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotar o programa de corte de despesas que seria defendido pelo candidato derrotado Flávio Bolsonaro.
“Em 25 de outubro, a maioria do eleitorado reelegeu Lula e recusou o programa de Flávio Bolsonaro, que prometia cortar R$ 190 bilhões do gasto público. Um governo eleito por um levante popular contra a ameaça bolsonarista não pode escolher a via defendida pelos mais ricos”, diz o documento.
Os especialistas argumentam que o problema da dĂvida pĂşblica Ă© o custo com os juros fixados pelo Banco Central (BC), e nĂŁo com os gastos da UniĂŁo. A dĂvida bruta do Brasil alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto deste ano. Em 2022, a dĂvida estava em 71,7% do PIB.
O texto aponta como o principal responsável pelo aumento da dĂvida os juros reais praticados no Brasil, que sĂŁo os maiores do mundo segundo ranking da Moneyou. Nos Ăşltimos doze meses, os juros consumiram mais de R$ 1,1 trilhĂŁo do orçamento pĂşblico, o que representa 8,9% do PIB brasileiro, segundo o BC.Â
“O gasto com juros é mais de catorze vezes o déficit primário de R$ 82 bilhões. A inflação de doze meses, de 4,58% em setembro, passou do teto por causa da energia e dos alimentos, choques que a Selic [taxa de juros definida pelo BC] não corrige”, diz o manifesto.
O Banco Central justifica os juros elevados, entre outros motivos, devido as pressões inflacionárias e aos déficits fiscais primários nas contas públicas. Segundo a autoridade monetária, os gastos primários acima da arrecadação pressionam a inflação.
Tributação de Altas Rendas
No lugar de um corte de gastos pĂşblicos, o que poderia afetar áreas sociais, os economistas defendem antecipar para o prĂłximo ano a tributação mĂnima de 10% para pessoas de altas rendas, que recebem acima de R$ 600 mil por ano, conforme aprovada pela Lei 15.270 de 2025.Â
Isso, porque a nova regra sĂł vale para declaração de 2027 com lucros acumulados atĂ© 2025 podendo ser distribuĂdos sem imposto atĂ© 2028. Â
“Se aprovada por lei até 31 de dezembro, uma nova tributação do topo vale já em janeiro. Ela deve alcançar dividendos, juros sobre capital próprio e aplicações isentas. É preciso também rever isenções, regimes especiais e incentivos, que somam R$ 612,8 bilhões em gastos tributários”, diz o comunicado.
No Brasil, os recursos pagos aos acionistas por meio de dividendos sĂŁo isentos de pagamento de Imposto de Renda (IR).
Selic e meta de inflação
O manifesto pede ainda que o Banco Central nĂŁo promova nenhuma nova alta da taxa Selic, atualmente em 13,75% ao ano, e pede medidas para que a queda dos juros chegue Ă s famĂlias e pequenas e mĂ©dias empresas endividadas.
Outra proposta é a revisão da meta da inflação, usada pelo BC para fixar os juros. Atualmente, o centro da meta de inflação está em 3% ao ano e é definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), onde o governo federal tem maioria de votos.
“Um novo decreto deve suprimir a carência de 36 meses criada em 2024 para mudar a meta. Propomos retomar o centro de 4,5%, vigente de 2005 a 2018, alongar o horizonte de convergência e dar peso efetivo ao pleno emprego, que a lei já inclui entre os objetivos do Banco Central”, diz o manifesto.
Nova regra fiscal
Outra proposta Ă© a aprovar no Congresso Nacional, ainda neste ano, nova regra fiscal para o Brasil que substitua o arcabouço fiscal, que limita o crescimento real das despesas a atĂ© 2,5% ao ano e atĂ© 70% do crescimento da receita. Â
“O limite atrelado a 70% da receita Ă© incompatĂvel com pisos de saĂşde e educação que crescem com a receita. As regras fiscais atuais tambĂ©m inibem os desafios do prĂłximo mandato, como a reindustrialização com transição ecolĂłgica, que depende de investimento pĂşblico, de aportes nas estatais e do crĂ©dito do BNDES”, diz o texto.
O manifesto sugere que uma nova lei complementar deve excluir dos limites fiscais tanto o investimento pĂşblico, o Bolsa FamĂlia e os pisos da saĂşde e educação, quanto os aportes nas estatais e no Banco Nacional de Desenvolvimento EconĂ´mico e Social (BNDES).
CrĂticas ao ajuste fiscal
Os especialistas ainda criticam membros do governo que tem defendido, nos Ăşltimos dias, medidas de ajuste fiscal, como o ministro da Fazenda, Dario Durigan.
“O programa derrotado volta pela porta da Fazenda. Já vimos esse filme. Em 2024 e 2025, a Fazenda apertou o orçamento enquanto o Banco Central elevava a Selic de 10,5% para 15%. A avaliação positiva do governo caiu de 36% para 24%”, diz a nota.
Os especialistas ainda argumentam que o ajuste fiscal de 2015 realizado pela presidente Dilma Rousseff contribuiu para recessĂŁo econĂ´mica daquele perĂodo, o que teria aberto caminho para o impeachment da petista.
“Diante de um Congresso mais hostil, com 121 deputados do PL e 49 senadores de direita a partir de fevereiro, repetir a receita pode enfraquecer o apoio obtido nas ruas para a reeleição de Lula e tornar seu governo vulnerável a um novo golpe parlamentar”, diz o manifesto.
Entre os economistas que assinam o texto, estĂŁo os professores da Unicamp, Pedro Paulo Zahluth Bastos e Simone Deos, da Universidade de BrasĂlia (UnB), Maria de Lourdes Rollemberg Mollo, da Queen’s University Belfast, Alfredo Saad Filho, e da Universidade Federal Fluminense, Juliane Furno




