27/03/2025 – 18:33 Â
Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados
Gilson Daniel: há risco de perda de milhares de empregos já no mês de abril
Representantes dos setores de turismo e eventos afirmaram nesta quinta-feira (27), durante comissĂŁo geral no Plenário da Câmara dos Deputados, que o fim antecipado do programa de apoio financeiro ao setor pode comprometer a plena recuperação financeira das empresas. Eles negociam com o governo federal a prorrogação dos benefĂcios fiscais a partir da devolução de recursos usados indevidamente por empresas de outros segmentos.
Criado em 2021 para suavizar os impactos da pandemia de Covid-19 na área de turismo e eventos, o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) reduziu a zero as alĂquotas de PIS/Pasep, Cofins, CSLL e IRPJ por cinco anos para empresas que se habilitassem atĂ© 2 de agosto de 2024. Diversos estabelecimentos puderam se beneficiar, como hotĂ©is, casas de eventos, prestadores de serviço de transporte e agĂŞncias de viagens.
O deputado Gilson Daniel (Pode-ES), que preside a frente parlamentar da hotelaria e sugeriu o debate sobre o assunto, lembrou que o segmento de eventos, turismo e hotelaria foi um dos mais impactados com os fechamentos durante a pandemia e, para ele, apesar dos avanços, ainda não retomou a estabilidade. “Se nada for feito, correremos o risco de que já no mês de abril milhares de empregos fiquem desamparados, comprometendo a recuperação do setor”, disse.
Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados
Felipe Carreras se reuniu com o ministro da Fazenda para negociar a recomposição do Perse
Limite
Em 2024, a Lei 14.859/24 estabeleceu novas regras para o Perse, definindo que o programa deveria funcionar atĂ© dezembro de 2026 ou atĂ© alcançar o limite de R$ 15 bilhões em incentivos concedidos. Dados da Receita Federal indicam que o limite será atingido agora em março.  Na segunda-feira (24), um ato declaratĂłrio da Receita Federal já informa que o benefĂcio fiscal nĂŁo poderá ser usufruĂdo a partir de abril.
Gilson Daniel lembrou que os segmentos beneficiados representam 7,9% do PIB e empregam mais de 11 milhões de brasileiros. Ele fez um apelo ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para que recursos acessados indevidamente por meio do programa sejam recuperados e retornem ao Perse.
“Faço um apelo para que os recursos que foram acessados de maneira indevida por setores, pessoas ou empresas, que não se enquadravam no critério do Perse sejam recuperados e retornem ao programa”, disse.
O deputado Felipe Carreras (PSB-PE), que se reuniu nesta quinta-feira com Haddad e com representantes do setor, lembrou que a legislação autoriza isenções para 30 setores listados na Classificação Nacional de Atividade Econômica (CNAE), mas relatórios independentes apontam que mais de 150 segmentos foram beneficiados.
Segundo Carreras, durante a reunião, Haddad sinalizou que poderá acolher a ideia de recompor o programa com a recuperação dos recursos usados indevidamente. “O que foi acordado hoje, com o ministro Haddad e com a presença do secretário nacional da Receita Federal, Robson Barreirinhas, é que, caso haja o uso indevido, esse recurso vai voltar ao programa”, disse.
Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados
Thiago Cortez denuncia que 85% das atividades que recebem o benefĂcio nĂŁo sĂŁo elegĂveis segundo a lei
TransparĂŞncia
Economista da Tendências Consultoria Integrada, Thiago Xavier Cortez apontou falhas de comunicação e de transparência no Perse, como a não entrega bimestral de relatórios e a falta de detalhamento sobre as empresas habilitadas.
Segundo ele, há uma inconsistĂŞncia entre os resultados da Receita e os cálculos da consultoria. “Quando a gente pega os resultados da Declaração de Incentivos, RenĂşncias, BenefĂcios e Imunidades de Natureza Tributária, nĂŁo conseguimos reproduzir, com a mesma exatidĂŁo, os valores oficiais. Segundo a lei, 30 CNAES sĂŁo elegĂveis, no relatĂłrio há pelo menos 180. Ou seja, 85% dos CNAES estĂŁo em desacordo com a lei”, disse.
Cortez afirmou ainda que um terço das dez maiores beneficiárias do programa estaria em desacordo com a lei.
Presidente da Associação Brasileira da IndĂşstria de HotĂ©is (ABIH), Manoel Cardoso Linhares ressaltou que o Perse nĂŁo Ă© um privilĂ©gio, mas uma polĂtica pĂşblica que salvou empregos. Para Linhares, o fim do programa antes do prazo representa descumprimento do acordo firmado com o setor.
“O programa foi criado por esta Casa Legislativa, aprovado com ampla maioria com a promessa de vigência até 2027, e essa promessa está sendo descumprida pela Receita Federal, sem transparência, sem diálogo, sem prestação de contas”, disse.
O presidente da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos, Doreni IsaĂas Caramori Jr., disse que o programa apresenta inconsistĂŞncias numĂ©ricas e de procedimentos e nĂŁo deveria ser encerrado atĂ© que se resolvam essas questões.
Reportagem – Murilo Souza
Edição – Geórgia Moraes




