Os conflitos armados na Colômbia tiveram, em 2024, o pior ano desde 2016, quando foi assinado o Acordo de Paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs). O levantamento é do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e foi divulgado nesta quinta-feira (27).

“O uso de artefatos explosivos, deslocamento e confinamento, bem como a gravidade dos ataques aos cuidados de saĂşde, atingiram nĂşmeros nĂŁo vistos no paĂs há mais de oito anos”, resumiu o chefe da delegação do CICV na ColĂ´mbia, Patrick Hamilton.
Ao todo, a organização humanitária internacional registrou 382 casos de violações do direito humanitário internacional (DIH).Â
“Destes, 44% foram atos cometidos fora das hostilidades, dirigidos contra a vida e a integridade fĂsica e mental de pessoas protegidas pelo DIH, como a população civil e aqueles que permaneceram fora dos combates”.
O CICV calculou ainda que mais de 88 mil pessoas sofreram com confinamento forçado em 12 departamentos do paĂs, em 2024, devido aos oito conflitos armados nĂŁo internacionais que o ComitĂŞ calcula que estejam ativos no paĂs sul-americano.
“Em 2024, os confinamentos de comunidades na ColĂ´mbia atingiram seu ponto mais crĂtico dos Ăşltimos oito anos. Os eventos de confinamento aumentaram em 102% e a população afetada cresceu 89% em comparação ao ano anterior”, diz o informe.
O documento não levou em conta os conflitos registrados neste ano de 2025, na região do Catatumbo, após o Exército de Liberação Nacional (ELN) declarar guerra contra grupos dissidentes das Farc.
O conflito em Catatumbo, o maior dos Ăşltimos anos, levou Ă expulsĂŁo de cerca de 52 mil pessoas de suas casas, reduzindo as chances de “Paz Total” promovida pelo atual governo do paĂs. Estima-se que 8,6 mil pessoas sofreram com confinamento em Catatumbo apĂłs os conflitos iniciados em janeiro de 2025.
A CICV explica que o confinamento forçado é quando as comunidades ficam com a locomoção restrita aos seus territórios, sem poder se locomover para outras áreas, em razão de ameaças diretas de grupos armados ou por estratégias das próprias comunidades para evitar riscos.
Deslocamentos forçados
Os conflitos armados colombianos, em 2024, fizeram com que mais de 158 mil pessoas abandonassem suas casas para fugir da violĂŞncia.Â
“Ou seja, em 2024, a cada três dias, em média, uma comunidade foi forçada a deixar suas casas para proteger a vida de seus membros”, destacou o documento.
A CICV avalia ainda que o nĂşmero total de deslocamentos forçados Ă© muito superior ao registrado, já que “muitas vĂtimas nĂŁo denunciam os fatos no mesmo ano da ocorrĂŞncia, por medo de represálias de atores armados ou por desconhecimento da rota de atendimento do Estado”.
Explosivos e desaparecimentos
O nĂşmero de vĂtimas por explosivos na ColĂ´mbia cresceu 89% em 2024 em relação ao ano anterior, sendo o maior nĂşmero dos Ăşltimos oito anos. Ao todo, 719 pessoas morreram ou ficaram feridas pela detonação de explosivos no ano passado. Desse total, 67% foram de civis, sendo ainda 163 integrantes das forças pĂşblicas de segurança e outras 74 pessoas ligadas aos grupos armados.
Já o número documentado pela organização internacional em 2024 de desaparecidos com alguma relação com conflitos chegou a 252 pessoas, aumento de 13% em relação a 2023.
“Na ColĂ´mbia, o desaparecimento de pessoas continua a ser uma tragĂ©dia sem fim. Milhares de famĂlias durante anos, e mesmo durante dĂ©cadas, eles procuraram incansavelmente por seus entes queridos”, reportou a organização.
Origem da guerra
O inĂcio do conflito armado da ColĂ´mbia remonta a dĂ©cada de 1940, resultado da concentração de terras na mĂŁo de poucas pessoas, de um lado, e de massas de camponeses sem terra, do outro.
A luta pela terra detonou uma violĂŞncia contra camponeses que se organizavam no paĂs, segundo explicação do professor da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), o colombiano Sebastian Henao.
“A luta pela terra foi se agravando em meio ao contexto da violĂŞncia entre os partidos liberal e conservador e os grupos camponeses vĂŁo se armando para se proteger. Nas dĂ©cadas de 1960 e 1970, no contexto da guerra fria, as organizações passam a adotar um projeto polĂtico para tomada do poder”, explicou.
O especialista diz que o crescimento da economia da cocaĂna levou essas guerrilhas a procurarem controlar a produção da droga para se financiarem.
“As guerrilhas tomam o negócio da droga para financiar a guerra e a resposta do Estado foi muito mais violenta, o que leva ao recrudescimento do conflito na década de 1990”, completou.




