Niede Guidon, um arqueólogo brasileiro cujo trabalho questionou uma teoria de longa data de como as Américas foram povoadas pela primeira vez por seres humanos e que quase sozinhos transformaram uma região de Hardscrabble do nordeste do Brasil no Parque Nacional Serra Da Capivara, morreu na quarta-feira em sua casa, perto do parque, em São Raimundo Nonato. Ela tinha 92 anos.
Marian Rodrigues, diretor do parque, disse que a causa foi um ataque cardíaco.
A Dra. Guidon era talvez mais conhecida nos círculos científicos internacionais por suas descobertas disputadas de que os seres humanos chegaram às Américas há 30.000 anos ou mais. Mas poucos questionaram suas realizações em rastrear e preservar centenas de pinturas rupestres de milênios em um canto semiárido, repleto de cactos e empobrecido do estado de Piauí.
Em 1979, por sua insistência, o governo brasileiro fez da área um parque nacional e, em 1991, novamente por causa dela, UNESCO, a Agência Cultural das Nações Unidas, declarou -a um Patrimônio Mundial. Ela então se tornou fundamental na criação de dois museus por perto: o Museu do Americanoque abriu em 1996, e o Museu da Naturezaem 2018. E ela teve um papel estranho na atração de investimentos para a cidade, levando a um novo aeroporto e a um campus da universidade federal e a melhorar muito a educação pública na região.
“A melhor maneira de preservar as pinturas era preservar os arredores e preservar o ambiente, você tinha que fornecer recursos para as pessoas”, disse Antoine Lourdeau, um arqueólogo francês que trabalhou com o Dr. Guidon dentro e fora de cerca de uma década a partir de 2006, em entrevista. “Não acho que a maioria dos arqueólogos esteja consciente das implicações sociais de seu próprio trabalho”.
O Dr. Guidon foi particularmente eficaz no treinamento e empregando mulheres em uma região onde os homens oscilavam e a violência doméstica era comum, disse Adriana Abujamra, a autora de Uma biografia de 2023 do Dr. Guidon. “Ouvi muitos, muitos depoimentos tocando para ela de mulheres que ganharam autonomia financeira e enviaram seus homens ao inferno”, uma expressão portuguesa que significa que eles deixaram seus parceiros, disse ela.
Além de trabalhar para o parque e os museus, alguns como guias e guardas, muitos locais produzem mel e cerâmica que são vendidos em todo o país por meio de iniciativas que o Dr. Guidon começou nos anos 90.
Niede Guidon nasceu em 12 de março de 1933, em Jaú, uma pequena cidade no estado de São Paulo. Embora Neide seja um nome brasileiro popular, Niede não é. O lado de seu pai da família era francês e ela recebeu o nome do rio Nied, que atravessa a França e a Alemanha.
Depois de estudar história natural na Universidade de São Paulo e receber o equivalente a um diploma de bacharel em 1958, Guidon fez um emprego naquele ano como professor na pequena e predominantemente cidade católica romana de Itápolis. Mas depois de denunciar a corrupção dentro da escola a uma revista São Paulo no início de 1959, a cidade – incentivada pelos administradores da escola – se virou contra ela.
Como uma mulher solteira que dirigia um carro, pulou missa e ensinou a evolução, ela era um alvo fácil em Itápolis amplamente conservador. As tensões cresceram e, após protestos violentos, ela e duas outras professores fugiram, escoltadas por policiais.
“Tudo o que faltava para completar a cena medieval foi uma fogueira para queimar as bruxas”, disse ela a um repórter na época, de acordo com Um podcast 2024 sobre a vida dela.
Mais tarde naquele ano, ela assumiu o emprego no Museu Paulista em São Paulo, e foi lá que ela se interessou por arqueologia. Durante uma exposição fotográfica que ela organizou – de desenhos rochosos pré -históricos – visitantes do nordeste do Brasil mostraram suas fotografias das pinturas em Piauí, as que ela dedicaria sua vida à preservação.
Mas não por um tempo. Sua tentativa inicial de vê -los, em 1963, falhou quando o colapso de uma ponte a impediu de obter acesso à área. No ano seguinte, ela fugiu do Brasil para Paris depois de ser apoiada que logo seria presa pela nova ditadura militar, que havia derrubado o presidente João Goulart para ganhar poder.
Ela estudou arqueologia na França, eventualmente ganhando doutorado pela Universidade de Paris em 1975, embora voltasse frequentemente ao Brasil para o trabalho de campo. Em 1970, o Dr. Guidon finalmente conseguiu visitar as pinturas rochosas em Piauí. Atordoado por sua complexidadeela começou a visitar regularmente, organizando equipes para caminhadas de um dia por terrenos difíceis para catalogar o que acabou sendo centenas de sítios arqueológicos.
Ela voltou ao Brasil para sempre em 1986 e, seis anos depois, se mudou para São Raimundo Nonato, onde era conhecida pela cidade como “Doutoura”, ou Doctor.
Na década de 1990, escavações próximas aos locais de pintura descobriram material – incluindo restos de carbono de fogueiras presumidas e ferramentas de pedra lascadas – que os laboratórios datam de 30.000 anos atrás. Dr. Guidon ficou surpreso. Mas outros cientistas eram altamente céticos, especialmente os dos Estados Unidos, que aderiram ao modelo de Clovis, em homenagem a um sítio arqueológico no Novo México, onde evidências apoiaram a teoria de que os humanos provavelmente chegaram às Américas há 13.000 anos, atravessando uma ponte terrestre que agora é o estreito de Bering.
Embora os cientistas agora geralmente concordem que os humanos chegaram ao continente norte -americano alguns milhares de anos antes, as descobertas do Dr. Guidon ainda são controversas. A questão permanece se os materiais escavados perto dos locais de pintura foram criados por seres humanos ou por forças naturais.
Mas seu trabalho trouxe atenção, dinheiro e recursos para Piauí, e até alguns de seus críticos acadêmicos reconhecem suas realizações.
“Ela era uma estadista com um senso de propósito, que sabia como convencer as pessoas”, disse André Strauss, arqueólogo da Universidade de São Paulo. Ele duvidou de algumas das descobertas do Dr. Guidon, mas, no entanto, admirou seu carisma – tanto que a chamou de “o Churchill do nordeste do Brasil”. Como Churchill, ela tinha um talento para o dramático, muitas vezes ameaçando fazer as malas e retornar à vida mais refinada que levou a Paris como acadêmica, de acordo com a biografia de Abujamra.
Mas ela nunca fez. Na manhã de 5 de junho, ela foi enterrada no jardim do lado de fora de sua casa em São Raimundo Nonato.




