O presidente Luiz InÔcio Lula da Silva anunciou, nesta quinta-feira (12), ações do governo federal previstas no novo acordo para reparar os danos causados pelo rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, Minas Gerais, em 2015. Nesta etapa, são investimentos em saúde, educação, assistência técnica, transferência de renda para a população da Bacia do Rio Doce e a inclusão de participação social na definição de projetos.

O presidente Lula lembrou que o governo federal assumiu a responsabilidade de parte das aƧƵes de reparação e cobrou seus ministros para que elas saiam, de fato, do papel.Ā
āAgora, as coisas tĆŖm que acontecer no tempo das possibilidades de executar, porque tambĆ©m tem muita burocracia. Recuperar a bacia nĆ£o Ć© uma coisa assim, ah, vou plantar 1 mil Ć”rvores, nĆ£o. Ć preciso ter muita tarefa para saber o que a gente vai recuperarā, disse Lula.
āPara criar condiƧƵes de as pessoas voltarem Ć normalidade, leva um tempo. Nós estamos hĆ” 6 meses jĆ” com esse pepino nas nossas costas. Eu tenho dito aos meus companheiros, que agora Ć© da nossa responsabilidadeā, afirmou o presidente cobrando ainda a divulgação das aƧƵes para a população da regiĆ£o.
Ações da União
Nesta quinta-feira, a Caixa EconĆ“mica Federal assinou com os ministĆ©rios da Pesca e do Desenvolvimento AgrĆ”rio termos para a transferĆŖncia de renda a agricultores familiares e pescadores impactados pela tragĆ©dia. Os pagamentos devem comeƧar no mĆŖs que vem no valor de 1,5 salĆ”rio mĆnimo, por 36 meses, seguido de mais 12 meses com 1 salĆ”rio mĆnimo. Ao todo, serĆ£o beneficiadas cerca de 15 mil famĆlias da agricultura familiar e 22 mil pescadores, com desembolsos de R$ 3,7 bilhƵes nos próximos 4 anos.
Ainda nesta quinta-feira foi formalizado o compromisso com a construção de um hospital universitÔrio em Mariana, vinculado à Universidade Federal de Ouro Preto. Serão investidos R$ 150 milhões pelo governo federal e R$ 20 milhões pela Prefeitura de Mariana, que também doarÔ o terreno. A unidade atenderÔ casos de média e alta complexidade.
Também houve a contratação de duas entidades para assistência técnica independente, para atuar junto às comunidades mineiras de Mariana e Barra Longa, com o objetivo de fortalecer a participação social dos atingidos nos processos de reparação. As instituições responsÔveis serão a CÔritas e a Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social, em ações coordenadas pelo Ministério do Desenvolvimento AgrÔrio e Agricultura Familiar.
Por fim, a Secretaria-Geral da Presidência lançou o edital para seleção de representantes da sociedade civil para composição do Conselho Federal de Participação Social da Bacia do Rio Doce e Litoral Capixaba, criado em junho. Serão 36 representantes da sociedade civil, sendo 18 titulares e 18 suplentes.
O conselho tem o objetivo de informar os atingidos sobre as ações da União decorrente do Acordo do Rio Doce, monitorar sua execução e deliberar sobre os projetos comunitÔrios do Fundo de Participação Social com orçamento de R$ 5 bilhões.
De acordo com o governo federal, tambĆ©m foram estabelecidos planos de ação em saĆŗde para quatro municĆpios atingidos – Mariana, Ouro Preto, Barra Longa e Rio Doce – e criados o Observatório da Educação na Bacia do Rio Doce, para avaliar a educação bĆ”sica nos 49 municĆpios, e 15 centros de Formação das Juventudes, que reĆŗnem cursos profissionalizantes e outras atividades de interesse comunitĆ”rio.
TragƩdia
A Barragem do FundĆ£o integrava um complexo da Samarco, mineradora controlada pelas empresas Vale (brasileira) e BHP Billiton (anglo-australiana). A tragĆ©dia aconteceu em 5 de novembro de 2015, quando cerca de 39 milhƵes de metros cĆŗbicos de rejeitos escoaram por 633 quilĆ“metros pela Bacia do Rio Doce, atĆ© a foz, no EspĆrito Santo. O desastre provocou a morte de 19 pessoas e impactos diversos Ć s populaƧƵes de 49 municĆpios mineiros e capixabas.
No acordo assinado em outubro de 2024, dos R$ 132 bilhƵes previstos, R$ 100 bilhƵes sĆ£o novos recursos que devem ser pagos em atĆ© 20 anos pelas empresas ao poder pĆŗblico, para serem aplicados em diversas aƧƵes. Desse total, R$ 49,08 bilhƵes serĆ£o executados pela UniĆ£o e o restante distribuĆdos entre os governos estaduais, municipais e órgĆ£os como o MinistĆ©rio PĆŗblico.
As companhias tambĆ©m destinarĆ£o R$ 32 bilhƵes para custeio de indenizaƧƵes a pessoas atingidas e de aƧƵes reparatórias que permanecerĆ£o sob sua responsabilidade.Ā
As empresas informam jĆ” terem desembolsado R$ 38 bilhƵes na reparação socioambiental, por meio da Fundação Renova, criada pelas empresas para conduzir as aƧƵes de reparação.Ā
Com a assinatura do acordo, a fundação foi extinta, e a própria Samarco assumiu as obrigações.
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Valor individual
O novo acordo estabeleceu o Programa Indenizatório Definitivo (PID), que prevê pagamento de R$ 95 mil para agricultores familiares e pescadores, e de R$ 35 mil para os demais atingidos. Mais de 260 mil pessoas jÔ aderiram ao programa, sendo 53.662 pagamentos jÔ realizados.
O prazo final para ingresso no PID foi prorrogado atƩ 4 de julho.
Para as entidades que representam os atingidos, entretanto, o valor individual é insuficiente. O representante da Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão de Mariana, Mauro Marcos da Silva, citou o desafio de colocar em prÔtica todos os projetos.
āEsse desafio tambĆ©m vem trazer o desespero das pessoas que foram diretamente atingidas e que aguardam uma reparação justa. Reparação essa que, atravĆ©s do PID, Programa de IlusĆ£o Definitiva, infelizmente, nĆ£o contempla a perda de todas essas pessoasā, disse.
De acordo ainda com as entidades representantes dos atingidos, a prova de que o acordo nĆ£o satisfaz Ć© que āapesar de 200 mil adesƵes, ainda existem milhares de pessoas ao longo da bacia que nĆ£o viram sequer 1 centavo da reparaçãoā.Ā
āĆ preciso ter um olhar porque os benefĆcios sĆ£o muitos, mas a reparação Ć© diferente de benefĆcio. A reparação Ć© urgente. Quem tem fome, tem pressa. E hĆ” 9 anos, 7 meses e 7 dias estamos com fome e com sede de justiƧaā, afirmou Marcos da Silva.
Alguns processos contra as empresas responsĆ”veis pela barragem ainda estĆ£o em andamento na Europa.Ā
āNĆ£o nos recrimine por talvez nĆ£o aceitar os R$ 35 mil que serĆ£o pagos direto aos atingidos, assim como os 600 comerciantes de Mariana, assim como o municĆpio de Mariana que nĆ£o aderiu ao acordo. NĆ£o nos recrimine, mas iremos continuar buscando a Ć©tica e a justiƧa seja em Mariana, Belo Horizonte, BrasĆlia, Londres, Holanda, AustrĆ”lia ou onde quer que elas estejamā, garantiu o representante dos atingidos.
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