SP: liminar impede despejo do Teatro do ContĂȘiner por 180 dias


A Justiça de SĂŁo Paulo concedeu liminar que garante a permanĂȘncia, por 180 dias, do Teatro de ContĂȘiner MungunzĂĄ e do Coletivo Tem Sentimento no imĂłvel pertencente Ă  prefeitura de SĂŁo Paulo, localizado na regiĂŁo da antiga CracolĂąndia.

A liminar, a pedido da juĂ­za Nandra Martins da Silva Machado, da 5ÂȘ Vara da Fazenda PĂșblica, impede açÔes de desocupação e incursĂ”es da Guarda Civil Metropolitana e de outros ĂłrgĂŁos.

Na decisĂŁo, tomada na noite desta quinta-feira (21), a juĂ­za justifica que o teatro Ă© composto por 15 estruturas de contĂȘineres marĂ­timos interligados, paredes de vidro, cobertura acĂșstica, iluminação, alĂ©m de um acervo artĂ­stico e cultural e que, por isso, a desocupação do imĂłvel nĂŁo seria um processo simples e exigiria um “planejamento tĂ©cnico e logĂ­stico para sua desmontagem, transporte e reestruturação”.

AlĂ©m disso, destacou a juĂ­za, o teatro tem programação confirmada atĂ© dezembro deste ano, “cuja interrupção acarretaria prejuĂ­zos nĂŁo apenas para o Teatro de ContĂȘiner, mas para toda a sociedade e para os inĂșmeros artistas, educadores e pĂșblicos diretamente envolvidos”.

Em nota publicada na manhĂŁ de hoje (22) em seu site oficial, a prefeitura informou que pretende revitalizar aquela regiĂŁo e construir um prĂ©dio de habitação de interesse social no terreno. A administração municipal diz ainda que jĂĄ havia oferecido trĂȘs ĂĄreas legalizadas para o Teatro de ContĂȘiner MungunzĂĄ, “que nĂŁo cumpriu trĂȘs ofĂ­cios para saĂ­da do terreno municipal ocupado irregularmente”.

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A Prefeitura também informou ter publicado ontem uma autorização de uso, por no måximo 60 dias.

“Neste prazo, o teatro deve tomar as providĂȘncias de transferĂȘncia da Rua General Couto de MagalhĂŁes para um novo local”, diz a nota.

A prefeitura tambĂ©m diz ter oferecido um novo local para o teatro, “uma ĂĄrea de 1.043 metros quadrados, na altura do nĂșmero 807 da Rua HelvĂ©tia, ĂĄrea ao lado da Avenida SĂŁo JoĂŁo e a menos de um quilĂŽmetro de distĂąncia de onde hoje funciona o MungunzĂĄ, atendendo assim a principal reivindicação do grupo que Ă© de permanĂȘncia naquele territĂłrio”.

Em entrevista concedida na manhĂŁ de hoje (22), o prefeito de SĂŁo Paulo, Ricardo Nunes, disse que ainda nĂŁo tinha conhecimento sobre a decisĂŁo judicial.

“A gente sempre tem diĂĄlogo com eles. Inclusive, sĂł na minha gestĂŁo, a prefeitura aportou mais R$ 2,5 milhĂ”es para o Teatro de ContĂȘiner e mais R$ 500 mil do governo do Estado. É uma empresa privada, nĂŁo Ă© uma entidade sem fins lucrativos. EstĂŁo fazendo atividades lĂĄ com recursos pĂșblicos. E vendem os ingressos.”

Segundo o prefeito, no local serå erguido um prédio com 95 habitaçÔes, além de uma årea de lazer.

“NinguĂ©m quer fechar o Teatro de ContĂȘiner.  A gente precisa da ĂĄrea, que Ă© do povo, para fazer uma ação planejada. E estamos oferecendo a eles outras ĂĄreas”.

TruculĂȘncia

Na Ășltima terça-feira, agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) retiraram Ă  força e com uso de gĂĄs de pimenta artistas de um prĂ©dio anexo ao teatro, onde eram guardados equipamentos e pertences usados pelo Teatro de ContĂȘiner.

A ação truculenta gerou muitos protestos de artistas e também do Ministério da Cultura e da Fundação Nacional de Artes (Funarte).

“O MinistĂ©rio da Cultura e a Funarte manifestam veemente repĂșdio Ă  ação policial empreendida pela Guarda Civil Metropolitana de SĂŁo Paulo para retirar artistas do Teatro de ContĂȘiner e membros da ONG Tem Sentimento de um prĂ©dio anexo ao terreno onde ficava o muro que cercava a CracolĂąndia, na Luz, regiĂŁo central de SĂŁo Paulo, na tarde dessa terça-feira (19).”

Diversos artistas se manifestaram a favor do Teatro de ContĂȘiner, como a atriz Marieta Severo. Em um vĂ­deo publicado nas redes sociais do teatro, a atriz comparou a ação da GCM aos “piores tempos de uma ditadura”.

“Quero deixar aqui a minha tristeza profunda por esse momento, e a minha vontade, a minha esperança de que isso não aconteça mais no Brasil. Não há mais espaço para isso. Nós vivemos uma democracia plena, precisamos dela, gostamos dela, queremos viver nela. E esse tipo de cena não compactua, não pode acontecer na democracia, na liberdade que a gente precisa, principalmente nas nossas artes, na nossa cultura”, disse ela.

A atriz Fernanda Montenegro tambĂ©m expressou sua posição contra o fechamento do teatro. Na noite da Ășltima terça-feira, ela publicou em suas redes sociais uma carta endereçada ao prefeito de SĂŁo Paulo, Ricardo Nunes, solicitando que ele repense o fechamento do teatro.

“Trata-se de uma companhia de teatro altamente criativa. SĂŁo 17 anos de atividades. Mais de 4.000 projetos realizados, tendo como base esta sede nesse bairro. É uma companhia teatral fundamental em SĂŁo Paulo e no Brasil. O Teatro de ContĂȘiner MungunzĂĄ, permanecendo nesse endereço na cidade de SĂŁo Paulo, Ă© um sinal de renascimento desse bairro. Um espaço de comunhĂŁo humana”, escreveu a atriz.

Em vĂ­deo tambĂ©m publicado nas redes sociais do Teatro, o ator AntĂŽnio Fagundes se dirige aos governantes e pede para que o teatro nĂŁo seja fechado. “JĂĄ sĂŁo tĂŁo poucos espaços para a gente usar no paĂ­s, nĂŁo permitam que mais um seja fechado na gestĂŁo de vocĂȘs. O Teatro de ContĂȘiner tem que continuar”, diz ele.

HistĂłrico

O Teatro de ContĂȘiner MungunzĂĄ estĂĄ instalado no local pertencente Ă  prefeitura desde 2016. O terreno Ă© localizado entre as ruas General Couto MagalhĂŁes, dos GusmĂ”es e dos Protestantes, onde ficava o “fluxo” da CracolĂąndia, na regiĂŁo central de SĂŁo Paulo. O pleito do grupo junto Ă  prefeitura Ă© que o terreno seja destinado Ă  Secretaria de Cultura do municĂ­pio e que a pasta regularize a situação do teatro.

No entanto, a prefeitura pretende dar outra finalidade ao local, que Ă© prĂłximo da regiĂŁo da CracolĂąndia. “A ĂĄrea ocupada pelo grupo estĂĄ dentro de um amplo projeto de revitalização da prefeitura, incluindo a construção de habitaçÔes e ĂĄrea de lazer”, informou a administração municipal.



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