Herói ou tirano brutal? A controvérsia sobre o explorador Magalhães do século 16



Embora os factos sólidos sobre a vida de Magalhães sejam limitados, a narrativa que muitas vezes prevalece é sobre o seu heroísmo. O Magalhães de Diaz, por outro lado, analisa com firmeza o que sabemos sobre o tratamento dispensado aos membros da sua tripulação a bordo da Armada de Maluco, que incluiu a execução de um deles por alegada sodomia e, à medida que a sua paranóia aumentava, o abandono do padre Pedro Sanchez de Reina. Os motins eram recorrentes e, em novembro de 1520, um dos cinco navios da frota, o Santo Antônioe toda a sua tripulação abandonou a missão.

Magalhães pode ter-se sentido compelido a aplicar punições tão severas por insegurança, porque ao fugir da sua própria nação, tornou-se um pária tanto em Portugal como em Espanha. “Magalhães tinha a desvantagem de não ser castelhano, o que reduziu a sua autoridade sobre a nobreza castelhana”, disse João Paulo Oliveira e Costa, professor de história da Universidade de Lisboa, à BBC. “Seus capitães castelhanos pretendiam obter o controle da expedição. A punição tinha que ser brutal para desencorajar novas rebeliões. Se Magalhães não os tivesse matado, eles teriam matado Magalhães.”

Foi depois da sua expedição que as elites finalmente perceberam o tamanho do próprio planeta – João Paulo Oliveira e Costa

Na cinebiografia de Diaz, a violência colonial que Magalhães e seus homens praticaram também é trazida à tona. Quando eles desembarcaram em Guam e um pequeno barco foi roubado, os marinheiros se vingaram sangrentamente contra o Comunidade indígenaincendiando casas. As comunidades de Malaca e das Filipinas foram sujeitas a uma brutalidade semelhante. Ao contrário de outras representações cinematográficas da violência colonial, no entanto, como O Rouxinol (2018) ou Soldado Azul (1970)o retrato de Diaz evita ações explosivas e potencialmente exploradoras. “A saga de Magalhães é épica”, explica ele. “Mas eu não queria fazer isso da maneira convencional, (com) o espetáculo… Eu estava na ronda policial quando era um jovem repórter e você vê o resultado, não vê a ação.

Apesar das falhas de Magalhães, Diaz não estava interessado em demonizá-lo. “Eu queria ver um personagem real”, insiste Diaz. “Um verdadeiro ser humano é ambicioso (e) sonha, não apenas para si mesmo ou para sua família. Ele realmente acreditava na fé cristã.” Além de ser amplamente considerado o primeiro europeu a fazer contacto com as Filipinas, Magalhães também foi responsável pela introdução do catolicismo na região. O Santo Niño (Criança Sagrada), uma estátua que Magalhães presenteou ao chefe local Rajah Humabon e que supostamente proporcionou a recuperação milagrosa de crianças doentes naquela comunidade, “ainda é o maior ícone do país”, diz Diaz. Hoje, 93% da população nas Filipinas é cristão.



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