Desordem mundial de Trump: ONG alerta para autoritarismo em 100 paĆ­ses


A organização não-governamental Human Rights Watch (HRWE) alerta para o aumento do autoritarismo e o retrocesso da democracia em mais de 100 países, apontando sobretudo o caso dos EUA, mas também Rússia e China.

Em seu relatório anual, divulgado nesta quarta-feira (4), a ONG considera que as salvaguardas e proteƧƵes dos direitos humanos em todo o mundo “tĆŖm sido devastados pelo presidente dos Estados Unidos”, Donald Trump, e pelo crescente autoritarismo, pedindo Ć s democracias que formem “uma alianƧa estratĆ©gica para preservar a ordem internacional baseada em regras”.

“[Ɖ preciso] conter a onda autoritĆ”ria que varre o mundo”, pediu o diretor executivo da HRW, Philippe Bolopion, citado no relatório, no qual acrescentou que esse “Ć© o desafio de uma geração”.

“O sistema global de Direitos Humanos estĆ” em perigo. Sob grande pressĆ£o do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e persistentemente minada pela China e pela RĆŗssia, a ordem internacional regida por leis estĆ” sendo destruĆ­da”, diz o documento.

“Os recentes abusos dos EUA – desde os ataques Ć  liberdade de expressĆ£o atĆ© a deportação de pessoas para paĆ­ses terceiros onde podem sofrer tortura – mostram o ataque do governo ao Estado de Direito.”

As aƧƵes da administração Trump, somadas aos “esforƧos antigos” da China e da RĆŗssia para enfraquecer a ordem global baseada em regras, “tĆŖm enormes repercussƵes em todo o mundo”, afirmou a organização.

Administração Trump

Para a HRW, a situação foi impulsionada sobretudo pelos EUA e, em particular, por Donald Trump, que “reduziu a responsabilização do governo, atacou a independĆŖncia judicial, desrespeitou ordens judiciais, cortou drasticamente a ajuda alimentar e subsĆ­dios de saĆŗde, revogou os direitos das mulheres, obstruiu o acesso ao aborto, minou as medidas de reparação por danos raciais, retirou as proteƧƵes Ć s pessoas trans e intersexo e corroeu a privacidade”.Ā 

AlĆ©m de tudo isso, o atual mandatĆ”rio tem “usado o poder do governo para intimidar adversĆ”rios polĆ­ticos, meios de comunicação social, escritórios de advocacia, universidades, sociedade civil e atĆ© mesmo comediantes”.

A política externa da administração Trump também é criticada pelo diretor executivo da HRW:

“Alegando um risco de apagamento civilizacional na Europa e apoiando-se em estereótipos racistas para retratar populaƧƵes inteiras como indesejĆ”veis nos EUA, a Administração Trump adotou polĆ­ticas e retórica que se alinham com a ideologia nacionalista branca.”

Concretamente, a ONG se refere Ć s aƧƵes do ServiƧo de Imigração e AlfĆ¢ndega dos EUA (ICE), cujos agentes usam “forƧa excessiva, aterrorizando comunidades, prendendo indevidamente dezenas de cidadĆ£os e, mais recentemente, matando injustificadamente duas pessoas em Minneapolis”.

“A mensagem Ć© clara: na nova desordem mundial de Trump, o poder dita o que Ć© certo e atrocidades nĆ£o sĆ£o impedimentos para acordos”, considera a HRW.

A polĆ­tica externa de Trump “subverteu os fundamentos da ordem internacional baseada em regras que procura promover a democracia e os direitos humanos. Trump vangloriou-se de nĆ£o precisar do direito internacional como restrição, apenas da sua própria moralidade”, acusou ainda.

“O governo [de Trump] cancelou abruptamente quase toda a ajuda externa dos EUA, incluindo o financiamento para ajuda humanitĆ”ria vital e retirou os EUA de instituiƧƵes multilaterais essenciais para a proteção global dos direitos humanos, incluindo o Conselho dos Direitos Humanos das NaƧƵes Unidas e o Acordo de Paris sobre o Clima”, criticou Philippe Bolopion.

“RecessĆ£o democrĆ”tica”

No caso da UcrĆ¢nia, onde “os esforƧos de paz de Trump tĆŖm consistentemente minimizado a responsabilidade da RĆŗssia por graves violaƧƵes”, em vez de exercer uma pressĆ£o significativa sobre o presidente russo, Vladimir Putin, para que ponha fim a estes crimes, “Trump repreendeu publicamente o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, exigiu um acordo exploratório de minerais e pressionou a UcrĆ¢nia a ceder grandes extensƵes de território”.

Com os EUA a virarem as costas aos direitos humanos, alguns dos países que poderiam ter liderado a luta para os preservar foram enfraquecidos por forças internas não liberais, prosseguiu Philippe Bolopion, citado no documento que faz uma retrospectiva dos direitos humanos no último ano.

Os países são também impedidos pelo receio de antagonizar os EUA e a China, e muitos consideram os direitos humanos e o Estado de direito como um obstÔculo, em vez de um benefício, à segurança e ao crescimento econÓmico, de acordo com a HRW.

No entanto, “para ser justo, o declĆ­nio antecede a reeleição de Trump”, escreveu Bolopion:

“A onda democrĆ”tica que comeƧou hĆ” mais de 50 anos foi seguida pelo que os estudiosos chamam de ‘recessĆ£o democrĆ”tica’. A democracia estĆ” agora de volta aos nĆ­veis de 1985, de acordo com alguns estudos, com 72% da população mundial vivendo atualmente sob regimes autoritĆ”rios. A RĆŗssia e a China sĆ£o menos livres hoje do que hĆ” 20 anos”.

Diante de tal cenĆ”rio, a organização internacional e o seu diretor executivo apelam Ć  uniĆ£o dos Estados que valorizam os direitos humanos para que possam “tornar-se uma forƧa polĆ­tica poderosa e um bloco econĆ“mico substancial”.Ā 



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