Adam Strauss Ă© parado em seu apartamento em Nova York, segurando o fio frouxo de seus fones de ouvido, tentando escolher entre os dois tocadores de MP3 em sua mesa: o iPod e o iRiver, seu equivalente coreano. Ele indica a mesma mĂșsica em cada um, alternando o plugue prateado de seus fones de ouvido como uma telefonista dos anos 1930.
Ele experimenta mĂșsicas diferentes, gĂȘneros diferentes, instrumentos diferentes. O iRiver tende a soar melhor no geral, mas o iPod oferece um pouco mais de nuances nos mĂ©dios. O iPod tem uma duração de bateria melhor, mas o iRiver ainda dura oito horas â mais do que ele jamais ouviu mĂșsica continuamente. Por outro lado, ele nunca teve um MP3 player. Oito horas sĂŁo suficientes?
Ele vai e volta, vai e volta, testando alcances vocais, resistĂȘncia de botĂ”es, estĂ©tica de interface. Seu monĂłlogo interno corre como uma fita adesiva. A estĂ©tica importa? Vai ficar no meu bolso a maior parte do dia. Nunca vi fila para comprar o iRiver, mas as pessoas fazem fila na Apple Store para comprar o iPod. Talvez essas pessoas saibam algo que eu nĂŁo sei. Ou talvez essas pessoas sejam todas idiotas, pagando mais caro por um dispositivo inferior!
Uma coisa seria se Adam decidisse qual MP3 player comprar. Afinal, era 2003, o auge da revolução dos dispositivos de åudio pessoais, e Adam era um audiófilo de 29 anos. Mas não foi apenas o iPod versus o iRiver. Para Adam, também eram outras decisÔes: que camisa vestir para trabalhar, o que pedir para o almoço e até mesmo que lado da rua caminhar.
A certa altura, num esforço para simplificar o seu processo de tomada de decisĂŁo sobre o que vestir, Adam comprou 11 camisas azuis idĂȘnticas. Mas ele rapidamente encontrou variaçÔes no caimento e no desbotamento de cada camisa. Ele acreditava que havia um certo camisa para escolher; todas as manhĂŁs ele passava 20, 30 e depois 45 minutos tentando encontrĂĄ-lo. Se ao menos conseguisse determinar qual camisa era a melhor, poderia controlar seu destino.
Por um lado, Adam sabia o quanto tudo se tornara ridĂculo. Ele nĂŁo era tolo; ele se formou em uma universidade da Ivy League e dirigiu sua prĂłpria empresa, que, na Ă©poca, era a maior biblioteca digital de efeitos sonoros para download do mundo. Ele era educado, talentoso e bem-sucedido â mas, ultimamente, seu transtorno obsessivo-compulsivo estava tomando conta de sua vida.
O TOC surge de uma mistura complexa de quĂmica cerebral, predisposição genĂ©tica e fatores ambientais. Numa conversa, porĂ©m, Adam compara seu TOC ao vĂcio em drogas. “HeroĂna nĂŁo Ă© o que o viciado em opiĂĄceos procura; eles estĂŁo procurando o barato. A heroĂna Ă© exatamente o que lhes dĂĄ o barato”, ele me disse. âCom o TOC, a certeza Ă© a heroĂna, e o barato Ă© a breve dose de dopamina que vocĂȘ sente quando sente que a encontrou.â
Mas com o TOC, ele nĂŁo precisava sair Ă rua para conseguir a dose. As Ășnicas ferramentas de que ele precisava viviam em sua cabeça. Adam iria se decidir…tem que ser o iRiver– e entĂŁo se convencer de que nĂŁo tinha ouvido hip-hop o suficiente. Antes que ele percebesse, as duas caixas estavam abertas em sua mesa e ele estava movendo o fio do fone de ouvido para frente e para trĂĄs novamente.
Logo Adam estava cancelando planos com amigos, chegando atrasado ao trabalho e passando os såbados ensolarados trancado em seu apartamento em Manhattan. Num esforço para esconder o seu TOC dos outros, ele fechou-se a situaçÔes sociais, o que, por sua vez, o deixou com mais tempo para ficar preso nos seus pensamentos.
âPara os viciados, a heroĂna Ă© um grande simplificadorâ, ele me disse. “Tudo o que importa Ă© conseguir a prĂłxima dose. Todo o resto Ă© insignificante em comparação.” Para Adam, o mesmo acontecia com a tomada de decisĂ”es. O resto da vida sĂł poderia começar depois que ele soubesse qual era o melhor tocador de MP3. Ele estava preso em um ciclo vicioso e precisava desesperadamente de uma saĂda.
O desejo de controle molda nossas decisÔes, relacionamentos e percepçÔes sobre nosso meio ambiente. Os psicólogos consideram o desejo de controle uma necessidade psicológica fundamental. Sim, estar no controle de sua vida geralmente é uma coisa boa. Mas quando o desejo de controlo se torna exaustivo, ou quando tentamos controlar o que fundamentalmente não podemos, isso pode ser devastador.




