A versĂŁo original de esta histĂłria apareceu em Revista Quanta.
Nas últimas décadas, os pesquisadores entenderam que os computadores quânticos deveriam eventualmente ser capazes de decifrar os códigos amplamente usados que protegem grande parte do mundo digital. Para se protegerem deste destino, passaram anos a desenvolver novos códigos que parecem ser protegido de futuros arrombadores de cofres armado com computadores quânticos.
Ao mesmo tempo, eles tambĂ©m criaram maneiras engenhosas usar as regras da mecânica quântica para manter as comunicações seguras. Mas a mecânica quântica, tal como a mecânica “clássica” que a precedeu, Ă© apenas uma teoria da natureza. E se eventualmente for substituĂda por uma teoria mais completa, tal como a mecânica quântica suplantou a fĂsica newtoniana há um sĂ©culo? Será que estas tĂ©cnicas de comunicação quântica ainda serĂŁo seguras num mundo onde existe um conjunto de regras ainda mais fundamental?
“Em termos desses protocolos criptográficos, Ă© bom ser paranĂłico”, disse Ravishankar Ramanathanum teĂłrico da informação quântica da Universidade de Hong Kong que trabalha com criptografia quântica. “Vamos tentar minimizar as suposições por trás do protocolo. Vamos supor que em alguma data futura as pessoas percebam que a mecânica quântica nĂŁo Ă© a teoria definitiva da natureza.”
É uma possibilidade que vale a pena considerar. A dificuldade de problemas pendentes – como conciliar a mecânica quântica e a gravidade – sugere que uma teoria pós-quântica da natureza pode envolver algo bastante inesperado.
Para se protegerem contra a possibilidade de os seus protocolos se basearem em suposições erradas, alguns criptĂłgrafos quânticos procuram princĂpios ainda mais básicos sobre os quais se basearem. Em vez de partir da mecânica quântica, eles vĂŁo mais fundo, atĂ© o prĂłprio conceito de causalidade.
Uma sabotagem sutil
Uma forma de compreender os desenvolvimentos nesta área Ă© considerar a distribuição quântica de chaves, que envolve tirar partido das regras da mecânica quântica para transmitir uma chave – algo que pode ser usado para descodificar uma mensagem secreta – de uma forma que nĂŁo possa ser secretamente adulterada. A distribuição de chaves quânticas faz uso do emaranhamento quântico, que mantĂ©m duas partĂculas unidas por meio de uma de suas propriedades, como o spin. O emaranhado quântico contĂ©m uma espĂ©cie de fio de viagem. Se alguĂ©m tentar mexer com o emaranhado – como faria se tentasse roubar a chave – a intrusĂŁo destruirá o emaranhado, revelando a sabotagem. Isto se deve a um princĂpio fundamental da mecânica quântica chamado “monogamia do emaranhamento”.
Mas e se esse princĂpio nĂŁo for mais válido? Nesse caso, se as pessoas que transmitem a mensagem nĂŁo tivessem controle total de seus dispositivos, alguĂ©m de fora poderia alterar sutilmente o emaranhado das partĂculas, interrompendo a comunicação sem deixar rastros.
Esse processo é chamado de bloqueio quântico, e os esforços para entendê-lo aumentaram nos últimos anos.
Para muitos cientistas, o bloqueio Ă© atraente porque pode ajudá-los a compreender melhor a mecânica quântica e a natureza da causa e do efeito. Eles se perguntam: existem princĂpios profundos que proĂbem a interferĂŞncia, que a tornam impossĂvel? Ou, se nenhum princĂpio o proibir, poderia ocorrer interferĂŞncia no mundo real?
Jim, o jammer
Michael EcksteinfĂsico teĂłrico da Universidade JaguelĂ´nica de CracĂłvia, na PolĂ´nia, gosta de ilustrar o improviso com uma histĂłria. Seus protagonistas sĂŁo os personagens clássicos das explicações da mecânica quântica, Alice e Bob.
“Suponha que vocĂŞ tenha Alice e Bob, e eles conheçam um mágico, Jim, o Jammer”, disse Eckstein. “O mágico diz: ‘Eu tenho duas bolas; uma Ă© branca e a outra Ă© preta.’”
As bolas representam um par de partĂculas emaranhadas. Se duas partĂculas estĂŁo emaranhadas, elas tĂŞm uma propriedade que está ligada de alguma forma – se vocĂŞ medir a primeira partĂcula e descobrir que seu spin está para cima, por exemplo, o spin da outra partĂcula será inevitavelmente para baixo, e vice-versa. Isto Ă© verdade mesmo que a outra partĂcula esteja no meio do universo. Aqui as bolas estĂŁo ligadas de tal forma que se uma for branca, a outra será sempre preta.




