No primeiro semestre de 2025, 1.655 pessoas ainda estavam internadas, em todo o paĂs, em hospitais de custĂłdia e tratamento psiquiátrico, tambĂ©m chamados de manicĂ´mios judiciários. SĂŁo pacientes com transtornos mentais que entraram em conflito com a lei.

As internações contrariam a Resolução 487 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), publicada em 2023, que determina o fechamento dos manicômios judiciários. A normativa também dita novas regras para o tratamento das pessoas que, por questões de saúde mental, são consideradas inimputáveis pela Justiça, mas precisam cumprir medida de segurança.
Nesta segunda-feira (22), às 23h, na TV Brasil, o programa Caminhos da Reportagem discute a realidade dos manicômios judiciários, os desafios para a aplicação da resolução do CNJ e as alternativas para o cuidado dos pacientes que vão passar pelo processo de desinstitucionalização.
A Lei da Reforma Psiquiátrica, que completou 25 anos, proĂbe a manutenção das pessoas com transtornos mentais em instituições asilares, com a exceção de internações curtas em perĂodos de crise. Inspirada na experiĂŞncia italiana, a lei tratava de princĂpios, de ter locais de tratamento que nĂŁo fossem locais de exclusĂŁo, mas de tratamento, de cuidado e em liberdade. Mas, de fato, ela foi mais adotada na área dentro do setor saĂşde,” explica o pesquisador da Fiocruz Paulo Amarante. O CNJ entendeu que a normativa tambĂ©m deve ser aplicada aos pacientes em conflito com a lei.
A determinação de fechar as unidades penais recebeu crĂticas de entidades como a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e a Associação Nacional dos Membros do MinistĂ©rio PĂşblico, que ajuizaram ações contra a resolução do CNJ no Supremo Tribunal (STF). Os estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro obtiveram liminares no STF para manter as instituições funcionando, com a justificativa de que falta estrutura na rede pĂşblica de saĂşde para tratar as pessoas com transtornos mentais em conflito com a lei.
“A gente quer sim desinternar, mas quer que as pessoas fiquem bem, nĂŁo voltem. E se vocĂŞ nĂŁo der a elas um aparato para isso, elas vĂŁo voltar”, pondera a defensora pĂşblica Ana Cristina Duarte, que atua no Hospital de CustĂłdia e Tratamento Psiquiátrico Henrique Roxo, em NiterĂłi.
Segundo a juĂza auxiliar da presidĂŞncia do CNJ, AndrĂ©a Britto, já Ă© possĂvel ver “um resultado extremamente efetivo e importante”. O nĂşmero internações em manicĂ´mios judiciários passou de 2.314 pacientes, em 2023, para 1.655, no primeiro semestre de 2025. Todos os estados entregaram planos de implementação da polĂtica antimanicomial do Judiciário. AtĂ© agora, seis estados fecharam os manicĂ´mios: Ceará, Roraima, PiauĂ, Alagoas, Mato Grosso e Goiás.
“Esses espaços juntam o pior do pior. O pior do manicĂ´mio e o pior das penitenciárias. Pessoas que deveriam estar recebendo o cuidado em saĂşde mental com o estabelecimento de medidas terapĂŞuticas para que pudessem ser reinseridas na sociedade, acabavam recebendo castigo fĂsico, punição, como surras ou isolamento, quando entravam em crise”, afirma Ivani Oliveira, presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP).
A Ăşltima inspeção nacional nos hospitais de custĂłdia e tratamento psiquiátrico, realizada pelo CFP, apontou uma sĂ©rie de violações de direitos. Foi o que Adilson Nogueira do Amaral vivenciou quando passou um ano e cinco meses num hospital penal no estado do Rio. “Me colocaram num lugar que Ă© a solitária, um buraquinho pequenininho. E vocĂŞ fica ali dentro daquele lugar todo escuro. O banheiro Ă© um buraco no chĂŁo”, lembra.
Hoje, Adilson Ă© compositor de blocos de carnaval ligados aos centros de Atenção Psicossocial (CAPS), onde faz tratamento. “Eu vou brincar meu carnaval para libertar o meu povo do eletrochoque, da lágrima e da dor…”, ele canta.




