Teatro apoiado pela ONU alia vozes contra a corrupção em Moçambique



O Centro de Saúde da Matola 2, nos arredores de Maputo, serviu de palco para a ação inaugural do Grupo de Intervenção e Sensibilização, Gris. 

A iniciativa foi promovida pelo Centro de Formação Jurídica e Judiciária, Cfjj, marcando a primeira etapa do órgão inaugurado pelo Ministério da Justiça, Assuntos Religiosos e Constitucionais de Moçambique, em abril.

Extorsão e prevenir práticas ilícitas

Reunindo gestantes, mães, jovens e mulheres adultas que aguardavam atendimento na unidade de saúde, a sessão utilizou a sensibilização comunitária como ferramenta para combater a extorsão e prevenir práticas ilícitas nos serviços públicos. 

© UNODC/Anna Kless
Ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos enalteceu a iniciativa

Ao transformar o espaço de espera em um debate aberto sobre direitos e integridade, a ação fortaleceu a conscientização social na busca por uma sociedade mais justa, transparente e igualitária para todos os moçambicanos.

Através de uma abordagem dinâmica que une palestras e representações teatrais, os integrantes do projeto Gris exploram temáticas essenciais para a cidadania moçambicana. 

Romper o silêncio

Durante a intervenção marcante no Hospital da Matola, o grupo colocou em evidência o direito inalienável do cidadão ao acesso pleno à saúde. Mais do que apenas informar, a iniciativa busca despertar a coragem cívica. 

Anifa Vilanculo, membro ativo do coletivo, fez um apelo público, reforçando que a principal arma contra a extorsão é a voz da população e convocando todos a romperem o silêncio para denunciar ativamente qualquer ato de corrupção.

“Denunciar qualquer tipo de hábito, corrupção que nós podemos presenciar no nosso dia a dia. Quanto mais nós protegermos esse tipo de ação, quanto mais nós calamos diante desse tipo de situação, na verdade nada muda. A coisa só continua a crescer porque nós calamos diante daquela situação.” 

Na peça teatral “A fila que não anda”, o grupo Gris levou ao palco um reflexo doloroso da realidade enfrentada por muitas das mulheres na plateia. 

© UNODC/Anna Kless
Sessão usa a sensibilização comunitária como ferramenta para combater a extorsão

Sequelas da Vida

O espetáculo expõe o ambiente de uma maternidade onde o direito ao atendimento não é pautado pela urgência médica ou pela dor, mas sim, pela capacidade da paciente de pagar subornos e ceder a extorsões.

A identificação com a obra é imediata e perturbadora. Ao se reconhecerem na narrativa encenada, diversos participantes sentem a necessidade de expor suas próprias feridas, mas o profundo medo de sofrerem retaliações faz com que a denúncia exija a proteção do anonimato.

Um retrato vivo desse trauma sistêmico é o de Josefina*, que, amparada pelo sigilo e tocada pela representação no palco, encontrou coragem para quebrar o silêncio e narrar a sua verdadeira história.

Ela contou que, em 2014, seus familiares pagaram 1,5 mil meticais, só assim foram atendidos no momento do parto. Depois dessa experiência, a decisão foi não ter mais filhos, por receio que o mesmo abuso voltasse a acontecer.

Peso financeiro da corrupção 

Em Moçambique, onde o salário-mínimo varia entre 7 mil e 11 mil meticais na maioria dos setores, o peso financeiro da corrupção é muitas vezes mencionado. 

As cobranças ilícitas, frequentemente a cidadãos em momentos de extrema vulnerabilidade, chegam a consumir o equivalente a semanas inteiras do rendimento de inúmeras famílias, aprofundando ainda mais a desigualdade social no país.

Foi exatamente para tirar o enfrentamento desse cenário da teoria e levá-lo à prática que surgiu o Grupo de Intervenção e Sensibilização. O projeto mobiliza funcionários e formandos profundamente comprometidos em promover a conscientização comunitária. 

Por meio da educação jurídica, a iniciativa atua diretamente na base, transformando o conhecimento em uma ferramenta ativa para reforçar a prevenção contra práticas corruptas.

Raiz do Gris 

Esta frente global de educação e empoderamento juvenil conta com o acompanhamento de Joana Wrabetz, especialista do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, Unodc. 

Ela explica que a raiz do Gris germinou a partir da adaptação de um módulo de ensino da própria agência da ONU, desenhado para incentivar o engajamento cívico. 

O que inicialmente era apenas uma capacitação teórica sobre participação cidadã, oferecida aos funcionários no Centro de Formação Jurídica e Judiciária, evoluiu e ganhou as ruas como uma verdadeira força de intervenção social.

“No final dessa formação achamos que era necessário passar da teoria à prática, da sala de aula para as ruas e, no fundo, acaba por ser a concretização daquilo que é a Unpac, que é a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção. No seu capítulo 2 fala, precisamente, sobre a prevenção e uma das partes mais importantes da prevenção é também a participação da sociedade civil, a participação de todos no combate à corrupção, porque passa por cada um.”

O impacto do Gris já reverbera nos mais altos escalões do governo moçambicano. Ao enaltecer a iniciativa, o ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, Mateus Saize, afirmou que a atuação do grupo representa um passo decisivo na transformação do conhecimento em ação concreta a serviço das comunidades. 

ONU News
Cobranças ilícitas, frequentemente a cidadãos em momentos de extrema vulnerabilidade, chegam a consumir o equivalente a semanas inteiras do rendimento

Fortalecimento da educação jurídica

Para o ministro, o projeto assume um papel indispensável no fortalecimento da educação jurídica da população e na prevenção ativa de práticas corruptas.

A relevância dos resultados alcançados transformou a iniciativa em um verdadeiro modelo a ser seguido. Diante desse sucesso, Elisa Boerekamp, diretora do Centro de Formação Jurídica e Judiciária, Cfjj, fez um apelo para que outras instituições em Moçambique desenvolvam as suas próprias réplicas do projeto, expandindo a rede de combate às cobranças ilícitas.

Essa frente de mobilização social ganha mais destaque graças a parcerias internacionais. As campanhas de conscientização promovidas pelo Gris são impulsionadas pelo suporte conjunto do Unodc e da União Europeia. 

Essa rede de cooperação opera por meio do projeto “Apoio ao Reforço da Justiça Penal em Moçambique” e engaja também a Associação Internacional de Advogados de Defesa, Iadc, integrada à ação por intermédio da iniciativa global Grace.

Ouri Pota é o correspondente da ONU News em Maputo.

** A partir da reportagem do ©Unodc/Anna Kless



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