“Tiktokização” e crise sufocam propostas de campanha, diz Fenaj


O debate pĆŗblico sobre os rumos do Brasil tem sido esvaziado por um modelo eleitoral distorcido, marcado pela ausĆŖncia de propostas estruturais. Ɖ o que aponta a presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro. Em entrevista Ć  AgĆŖncia Brasil, ela argumenta que os problemas reais do paĆ­s estĆ£o deixando de ser discutidos devido a dois principais fatores: a busca da grande mĆ­dia por audiĆŖncia instantĆ¢nea – e, na maioria dos casos, momentĆ¢nea – e a adesĆ£o das candidaturas a uma lógica de marketing superficial.

ā€œSofremos um processo violento de ‘tiktokização’ da campanha eleitoral. Tudo se resume Ć  dancinhaā€, declarou Samira.

Ela acrescenta que, em tempos de atenção pulverizada e consumo superficial de notícias, poucos candidatos parecem dispostos a debater a sério os reais problemas do Brasil. Samira também destaca qual é o papel do jornalismo nas grandes crises, como a que enfrenta o Supremo Tribunal Federal (STF) e a importância de ir além nessa pauta. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva.

AgĆŖncia Brasil:Ā A atual crise polĆ­tico-institucional, que envolve denĆŗncias relacionadas ao caso Master, afeta o debate eleitoral?

Samira de Castro:Ā Sim. Ela jĆ” extrapolou o Poder JudiciĆ”rio – envolvendo outras organizaƧƵes, como a PolĆ­cia Federal – e estĆ” dominando o debate. O pior Ć© que, a meu ver, ela continuarĆ” dominando o noticiĆ”rio.

Agência Brasil: Com a aproximação do primeiro turno [em 4 de outubro], você acha que a imprensa e a opinião pública vão encontrar uma forma mais equilibrada para seguir acompanhando e noticiando o caso e, ao mesmo tempo, estimular os candidatos a detalharem suas propostas e os demais problemas brasileiros?

Samira de Castro: Sendo muito sincera, acho que não. HÔ um outro aspecto nisso tudo que preocupa a mim e à Fenaj, que é a questão do jornalismo declaratório, da superficialidade com que este e outros escândalos são tratados.

Agência Brasil: De que maneira isso atrapalha o debate eleitoral e, no limite, impacta o curso normal das eleições?

Samira de Castro: Primeiramente, o debate eleitoral fica prejudicado porque, no primeiro plano, as atenƧƵes se voltam todas para a crise institucional – que neste caso Ć© [afeita ao] Poder JudiciĆ”rio. Com isso, as pautas comuns dos perĆ­odos eleitorais, ou seja, a discussĆ£o das propostas dos candidatos, das demandas da sociedade civil e das pautas nacionais, ficam em segundo plano.

Ainda que um ou outro veículo entreviste os candidatos ou tenha feito séries sobre os problemas reais do Brasil, isto fica em segundo plano diante do cenÔrio de crise. Em parte, isso ocorre também por uma lógica própria da comunicação, que é a busca pela audiência, cuja atenção é mobilizada. O resultado é que a população não debate com profundidade os programas de governo e as candidaturas, nem em nível nacional nem estadual. O que, em última instância, prejudica a sociedade civil organizada, cujas proposições não são contempladas.

Agência Brasil: Diante da gravidade da crise, isso poderia ser diferente? Como equacionar a necessÔria cobertura dos fatos e, ao mesmo tempo, garantir espaço para o debate dos problemas estruturais do país?

Samira de Castro:Ā Acho que a mĆ­dia precisa insistir na segunda agenda. Ɖ importante cobrir a crise do Poder JudiciĆ”rio. Inclusive porque rende muita audiĆŖncia – o que tambĆ©m Ć© necessĆ”rio. Mas a agenda própria aos debates polĆ­ticos precisa de uma certa insistĆŖncia; de uma visĆ£o de longo prazo que nĆ£o se esgota apenas na eleição. Porque tanto a realidade nacional tem que ser o tempo todo informada Ć  sociedade, como tambĆ©m os desafios futuros, sobretudo nos campos econĆ“mico, social e geopolĆ­tico, como a interferĆŖncia dos Estados Unidos. Esses temas podem atĆ© nĆ£o ser o assunto principal neste momento, mas tĆŖm que ser discutidos com fontes plurais e confiĆ”veis, evitando vieses editoriais. Ɖ preciso ir alĆ©m do jornalismo declaratório, do ā€œquem disse o quĆŖā€, e buscar ouvir a população, que Ć© afetada no dia a dia pela polĆ­tica.

AgĆŖncia Brasil: Toda crise polĆ­tica e institucional interessa ou beneficia a algum segmento e tambĆ©m cabe Ć  imprensa deixar isto claro – mesmo sob risco de ser acusada de parcial?

Samira de Castro: Acho que a imprensa vai ser cada vez mais desafiada nessas coberturas eleitorais. NĆ£o só pelas crises persistentes, mas por uma reflexĆ£o muito franca sobre qual Ć©, de fato, nosso papel. Ɖ ficarmos só na repercussĆ£o de fatos que mobilizam determinados setores polĆ­ticos e econĆ“micos? Para um segmento do espectro polĆ­tico, interessa que a crise institucional seja coberta todo dia, com vazamentos seletivos, investigaƧƵes direcionadas. Ɖ um projeto em disputa.

O jornalismo tem que perceber seu papel nesse momento e agir com responsabilidade, cumprindo sua função social de compartilhar informação de relevante interesse pĆŗblico, capaz de gerar cidadania. Mas, ao contrĆ”rio disso, muitos veĆ­culos de imprensa estĆ£o se guiando pela lógica de concorrer com as redes sociais, buscando uma atenção capaz de gerar engajamento momentĆ¢neo, mas sem discutir nada com profundidade, o que prejudica os esforƧos de veĆ­culos para se manterem relevantes. AlĆ©m disso, Ć© preciso reconhecer que houve um empobrecimento tambĆ©m das campanhas. Parece-me que estamos sofrendo um violento processo de “tiktokização” da campanha eleitoral. VocĆŖ olha os perfis dos candidatos e tudo se resume a dancinha. Ɖ uma loucura. Poucos parecem debater a sĆ©rio os reais problemas do Brasil.

Agência Brasil: E quais são, a seu ver, os temas mais urgentes nestas eleições?

Samira de Castro: Um deles certamente é a questão climÔtica. Como as candidaturas enxergam as mudanças climÔticas e suas consequências? Outra questão é como explorar nossas terras raras. Eu, particularmente, me interesso pela questão da atração de data centers, um tema bastante complicado e controverso. Enfim, hÔ inúmeros temas na ordem do dia e sobre os quais não estamos vendo um debate aprofundado.  



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