Alta da violĂȘncia sexual pode levar a novos conflitos, diz representante da ONU


O Conselho de Segurança da ONU se reuniu, nesta terça-feira, para debater como apoiar sobreviventes de violĂȘncia sexual em zonas de conflito, onde faltam serviços vitais.

A representante especial do secretĂĄrio-geral sobre ViolĂȘncia Sexual em Conflito, Pramila Patten, disse aos membros do Conselho que o mundo estĂĄ testemunhando “em silĂȘncio” o desmoronamento de um serviço fundamental.

Aumento de gastos com armas

Abrigos para sobreviventes estão sendo fechados por falta de dinheiro. Os suprimentos médicos para vítimas de estupro estão acabando, assim como missÔes de paz que são reduzidas à medida que clínicas médicas são obrigadas a fechar suas portas.

Pramila Patten ressalta que “o mundo gasta mais, em 24 horas, com armas do que num ano inteiro com o combate Ă  violĂȘncia de gĂȘnero em conflitos”.

A representante especial questionou os cortes em ajuda humanitåria e disse que a cooperação multilateral não pode ruir num momento em que o militarismo estå em ascensão e os direitos das mulheres estão sendo revertidos.

Segundo ela, “o preço serĂĄ mais caos e violĂȘncia, apagando dĂ©cadas de desenvolvimento e atiçando as chamas de novos conflitos”.

Armas de pequeno porte e armamento leve são coletadas e classificadas para destruição em uma instalação na Sérvia

Armas de pequeno porte e armamento leve são coletadas e classificadas para destruição em uma instalação na Sérvia

Sobreviventes sem atendimento

Patten contou ao Conselho de Segurança, que neste momento, na RepĂșblica DemocrĂĄtica do Congo, RD Congo, muitas clĂ­nicas estĂŁo recusando sobreviventes por falta de cuidados bĂĄsicos pĂłs-estupro.

Em paĂ­ses como SudĂŁo, UcrĂąnia e EtiĂłpia, os sistemas de saĂșde foram “dizimados” e as organizaçÔes humanitĂĄrias sĂŁo forçadas “a fazer cada vez mais com menos”. O mesmo estĂĄ acontecendo na Faixa de Gaza.

No SudĂŁo do Sul, mulheres que retornam de campos de deslocados precisam desesperadamente de assistĂȘncia para reconstruir suas vidas e meios de subsistĂȘncia.

Punição dos responsåveis

Patten lamentou que ao invĂ©s de defender o progresso e as transformaçÔes conquistados nos Ășltimos anos, os paĂ­ses cortam o financiamento que salva vidas.

Ela pediu aos membros do Conselho de Segurança para responsabilizem os que cometem, comandam ou toleram violaçÔes graves, “incluindo o crime atroz da violĂȘncia sexual relacionada a conflitos”.

Para Patten, prevenir e combater esse flagelo nĂŁo Ă© mais apenas uma aspiração, Ă© uma obrigação que deve ser “respeitada, implementada e executada”.

Uma sobrevivente de estupro descansa em um local para deslocados internos em Porto PrĂ­ncipe

Opas/OMS/David Lorens Mentor

Uma sobrevivente de estupro descansa em um local para deslocados internos em Porto PrĂ­ncipe

Aumento de 25% no nĂșmero de casos

Ao longo de 2024, foram documentados mais de 4,6 mil casos de violĂȘncia sexual associada a conflitos, incluindo como tĂĄtica de guerra, tortura, terror e repressĂŁo polĂ­tica.

O nĂșmero representa um aumento de 25% em relação a 2023 que, por sua vez, teve uma alta de 50% em relação ao ano anterior.

O relatĂłrio apresentado ao Conselho de Segurança agora abrange 21 situaçÔes preocupantes, com o maior nĂșmero de casos na RepĂșblica Centro-Africana, na RepĂșblica DemocrĂĄtica do Congo, no Haiti, na SomĂĄlia e no SudĂŁo do Sul.

VĂ­timas entre 1 e 75 anos

O impacto sobre mulheres e meninas Ă© desproporcional, consistindo em mais de 90% dos casos verificados.

O relatĂłrio registra violaçÔes contra vĂ­timas com idades entre 1 e 75 anos, bem como contra pessoas com orientação sexual e identidades de gĂȘnero diversas, minorias raciais e Ă©tnicas e pessoas com deficiĂȘncia.

A violĂȘncia sexual contra crianças aumentou 35% no Ășltimo ano, com incidentes de estupro coletivo aumentando drasticamente, causando danos duradouros e geracionais.

*Felipe de Carvalho Ă© redator da ONU News PortuguĂȘs.



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