Cada vez mais jovens tĂȘm buscado ajuda para largar a dependĂȘncia de bets, avalia Luiz Carlos*, integrante de um grupo de apoio para pessoas com problemas de jogo, a irmandade Jogadores AnĂŽnimos. Segundo ele, jĂĄ Ă© comum encontrar adolescentes na faixa de 14 anos procurando ajuda para conter o vĂcio.

âHoje quem chega Ă irmandade Ă© muito jovem. JĂĄ chegou atĂ© de 14 anos acompanhado pelo psiquiatra. Mas chegam jovens de 15, 16, 19, 20 anos, atĂ© 30, 35 anos”, conta ele.
O jovem Gustavo Pereira Ă© um dos que enfrentaram graves problemas financeiros e de saĂșde mental por conta da compulsĂŁo por bets. Atualmente com 24 anos de idade, ele começou a fazer apostas online aos 18 anos. Em um perĂodo de seis anos, chegou a perder meio milhĂŁo de reais por causa do vĂcio.
âGanhava muito bem na Ă©poca, jĂĄ fiz R$ 10 mil virarem R$ 300 mil, jĂĄ fiz bancas inimaginĂĄveis, fiz R$ 10 mil virarem R$ 200 mil, R$ 240 mil, e perdi tudo. EntĂŁo o dinheiro começou a perder valor para mim, eu comecei a perder a dimensĂŁo do dinheiro, na minha conta nĂŁo tinha todo aquele valor, mas lĂĄ na bet tinha, e o vĂcio faz isso, te enche de ganĂąncia”, diz o jovem.
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Gustavo conta que estĂĄÂ hĂĄ cerca de dois meses sem apostar e tenta recomeçar a vida vendendo cafĂ© nas ruas de Lages (SC). Ele mantĂ©m um perfil no Instagram onde posta conteĂșdos sobre seu trabalho e sobre como faz para superar o vĂcio e evitar recaĂdas.
“Eu dormia pensando em apostar e acordava pensando em apostar. Nestes seis anos, eu enfrentei muitas coisas, mudei com a depressĂŁo, uma sĂndrome do pĂąnico, e graças a Deus eu me libertei disso. Hoje vendo cafĂ© na rua e, se estou aqui, foi graças a Deus, Ă minha fĂ©, me apeguei nas pessoas que amo, consegui superar isso, e hoje meu propĂłsito de vida Ă© ajudar pessoasâ, relata Gustavo.
Especialistas afirmam que a facilidade de acesso Ă s plataformas de jogos pelo celular amplia a exposição de jovens Ă s bets. Dados do Fundo das NaçÔes Unidas para a infĂąncia (Unicef) mostram que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar em jogos online atĂ© os 11 anos de idade. O nĂșmero chega a 78% a partir de 12 anos. Os dados, de 2021, continuam atuais.
Ă o que indica uma pesquisa deste ano feita no Brasil e divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação. Entre 1.912 estudantes dos ensinos mĂ©dio e fundamental, 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos. Quase metade dos entrevistados no 3Âș ano do ensino mĂ©dio fizeram apostas.
Pesquisa do Instituto Brasileiro de Informação em CiĂȘncia e Tecnologia (IBICT) mostrou que canais voltados ao pĂșblico infantil exploram a falta de maturidade financeira de crianças e adolescentes para promover apostas ilegais.
A psicĂłloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que o jovem Ă© mais vulnerĂĄvel a apelos desse tipo porque o cĂ©rebro dele ainda estĂĄ em construção. Enquanto o nĂșcleo ligado Ă sensação de prazer e Ă dopamina funciona em ritmo acelerado, as regiĂ”es que controlam os impulsos e avaliam riscos sĂł terminam de amadurecer aos 20 e poucos anos.
âO adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda nĂŁo dispĂ”e do aparato para frear o impulso da aposta seguinteâ, diz.
Cassino no bolso
Luiz Carlos tem 71 anos e lembra que, quando começou a jogar, na dĂ©cada de 1980, nĂŁo existia celular. Na Ă©poca, o vĂcio eram as mĂĄquinas de videopĂŽquer. âSaĂa do jogo 4h, 5h da manhĂŁ, socando o painel do meu carro, me machucando, chorando, prometendo que nunca mais voltaria, e no outro dia eu estava lĂĄ, jogando novamente.â
âGraças a Deus eu nĂŁo jogo hoje, porque, se eu jogasse, estava perdido. Na minha Ă©poca, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje nĂŁo precisa mais, vocĂȘ carrega um cassino dentro do seu bolso”, afirma.
A dependĂȘncia de Luiz Carlos Ă© a mesma de quem aposta online, como RogĂ©rio* (53 anos), Rodrigo* (47) e Carla Xavier* (41), tambĂ©m frequentadores do Jogadores AnĂŽnimos.
Luiz Carlos estĂĄ hĂĄ 15 sem jogar. Carla e RogĂ©rio estĂŁo hĂĄ mais de um ano longe do vĂcio, enquanto Rodrigo estĂĄ hĂĄ seis meses sem apostar. A abstinĂȘncia foi conquistada graças Ă irmandade Jogadores AnĂŽnimos.
Segundo Carla, o grupo tem recebido principalmente pessoas que jĂĄ perderam tudo por causa de apostas. “[Elas] jĂĄ nĂŁo tem mais onde pedir ajuda. EntĂŁo jĂĄ estĂŁo desacreditadas da vida, jĂĄ estĂŁo pensando em suicĂdio, estĂŁo devendo para um monte de gente. Essas sĂŁo as pessoas que procuram o grupo. E, com as apostas online, isso cresceu demais, porque estĂĄ tudo na palma da mĂŁo hoje.â
Ouça na RadioagĂȘncia Nacional
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CompulsĂŁo e endividamento
Relatório do IBICT concluiu que pelo menos 24 milhÔes de brasileiros apostaram em bets em 2024, sendo que quase metade ficou endividada.
São muitos os relatos de quem passou pelo problema, como Rogério, que frequenta a irmandade Jogadores AnÎnimos. Ele diz que no começo as apostas pareciam inofensivas. Percepção que mudou quando elas começaram a controlar a vida dele de forma negativa.
âComeçaram a comprometer o meu orçamento, dificultar o pagamento das minhas contas, comecei a comprometer a minha renda.â
Segundo o diretor do IBICT, Tiago Braga, as apostas online não são um investimento, mas um gasto. O descontrole aumenta o risco.
âQuanto mais vocĂȘ aposta ou quanto mais vocĂȘ gasta recursos com a aposta, menos vocĂȘ terĂĄ recursos para o seu futuro. E isso a gente estĂĄ falando de questĂ”es do cotidiano como aluguel, comida, vestuĂĄrio, educação.”
Ele aponta ainda o risco de âde ideação suicida associada ao endividamento por jogo.â
Endividamento e ensino superior
Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) aponta que 34% dos entrevistados afirmaram que precisariam parar de gastar com apostas para conseguir iniciar uma graduação em 2026.
Entre aqueles que jĂĄ estĂŁo no ensino superior, 14% relataram ter atrasado as mensalidades ou trancado o curso por causa dos gastos com bets.
Para o diretor-geral da ABMES, Paulo Chanan, os dados sĂŁo um alerta importante, mas nĂŁo se pode generalizar o comportamento dos jovens. O que Ă© possĂvel afirmar, segundo ele, Ă© que, para uma parcela relevante deles, o dinheiro destinado Ă s apostas interfere diretamente em decisĂ”es relacionadas Ă educação, o que cria uma barreira adicional ao acesso e Ă permanĂȘncia no ensino superior.
A pesquisa mostra ainda que 34% afirmaram ter deixado de investir em cursos, idiomas ou outras formas de aprendizado por causa dos gastos com apostas. Outro dado: 33% deixaram de investir em academia ou atividades fĂsicas.
Segundo Paulo Chanan, as instituiçÔes de ensino podem contribuir com informação, prevenção, orientação, acolhimento e encaminhamento adequado quando necessĂĄrio, jĂĄ que o tema passou a fazer parte de uma realidade social que tambĂ©m chega ao ambiente acadĂȘmico.
O diretor-geral frisa que as instituiçÔes nĂŁo podem ser responsabilizadas sozinhas pelo enfrentamento do problema. Para ele, deve haver uma atuação conjunta que envolva educação, saĂșde, comportamento, regulação e polĂticas pĂșblicas.
O estudo da ABMES nĂŁo avaliou indicadores de desempenho acadĂȘmico nem de saĂșde mental.
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ECA Digital
Para aumentar o rigor em relação às plataformas, o governo federal sancionou, em setembro de 2025, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital). Conhecido como Lei Felca, o ECA Digital entrou em vigor em março de 2026 e atualizou a proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual com novas regras para aplicativos, jogos e redes sociais.
Para o advogado especialista em direito digital Felipe Moreira, a maior novidade Ă© a responsabilidade compartilhada entre as plataformas, as famĂlias e o prĂłprio Estado.
Moreira ressalta ainda a criação de mecanismos de aferição de idade confiĂĄveis, “nĂŁo mais sendo possĂvel aquela utilização de sou maior de 18 anos com um simples clique, a criação de verificação de padrĂ”es de segurança maiores tambĂ©m nesses jogos e, em especial, a criação de mecanismos de fiscalização por parte dos pais das atividades que vĂȘm sendo desenvolvidas por seus filhos.â
Antes, para entrar em sites restritos, bastava digitar uma data de nascimento, que podia ser falsa, para atestar a idade. Agora, quem tem menos de 18 anos nĂŁo pode apostar online, e menores de 16 anos sĂł podem usar redes sociais vinculados a responsĂĄveis.
O ECA Digital proĂbe tambĂ©m o acesso Ă s loot boxes, caixas com itens aleatĂłrios pagos, que se assemelham a jogos de azar.
A advogada Luana Mendes diz que o controle parental não significa apenas um não, mas educação digital. Ela destaca a importùncia de ensinar a criança a identificar situaçÔes perigosas, a não fornecer informaçÔes pessoais, não conversar com desconhecidos e denunciar comportamentos abusivos.
Luana ressalta que estabelecer uma relação de confiança com a criança Ă© fundamental para que ela possa âse sentir segura a ponto de procurar um adulto quando alguma situação dentro do jogo, dentro do ambiente digital, gerar medo e desconforto.â
O estatuto também amplia a responsabilidade das instituiçÔes de ensino, que devem reforçar a cidadania digital e podem ser responsabilizadas em caso de omissão diante de cyberbullying. Influenciadores mirins não podem fazer publicidade velada.
A psicóloga Mariana Kehl avalia que a publicidade feita por influencers é um risco, sobretudo para crianças e jovens.
âQuando o anĂșncio vem na voz de um influenciador que esse jovem acompanha diariamente, ele nĂŁo Ă© processado como publicidade. Ele Ă© processado como uma recomendação de alguĂ©m de confiança, o que rebaixa as defesas crĂticas que qualquer consumidor adulto poderia mobilizar diante de um comercial tradicional.â
Tiago Braga, do IBICT, destaca estudo realizado pelo instituto que mostra como influenciadores estavam utilizando o Facebook, o X (antigo Twitter), o TikTok e principalmente o YouTube para estimular jovens e crianças a apostar online.
Para o advogado Felipe Moreira, a legislação Ă© suficiente, mas a regulamentação da lei precisa ser cumprida e observada tanto pelo Poder PĂșblico, no Ăąmbito fiscalizatĂłrio, quanto pelas empresas que atuam no setor.Â
*Sobrenome omitido a pedido dos entrevistados.
Colaborou Luciene Cruz




