
A situação no Haiti continua a exigir prioridade e ação coordenada da comunidade internacional, alerta a ONU. O tema foi abordado nesta segunda-feira em reunião entre Estados-membros do Conselho de Segurança e lideranças da organização.
Sobre o cenário atual, o representante especial do secretário-geral no país, Carlos Ruiz Massieu, destacou o impacto da violência armada, a expansão territorial de gangues e uma crise humanitária sem precedentes que afeta milhões de haitianos.
Níveis extremos de violência
O enviado da ONU ressaltou ainda que as gangues continuam a desafiar diretamente a autoridade do Estado e a protagonizar níveis extremos de violência contra a população.
A insegurança generalizada persiste, apesar das operações intensas das forças de segurança, reforçadas pelo apoio crescente da Força de Supressão de Gangues, GSF, na área metropolitana de Porto-Príncipe e no Departamento de Artibonite.
Mais de 740 mil crianças foram deslocadas pela onda de insegurança nos últimos três meses no Haiti
A força, liderada pelo Quênia, já conta com mais de 2 mil efetivos no Haiti, vindos de seis países. O total representa pouco mais de um terço da força autorizada pela ONU, numa realidade em que se atua para superar desafios logísticos críticos na movimentação de equipamentos e recursos de inteligência.
As organizações criminosas demonstraram capacidade de adaptação, recorrendo a violência retaliatória contra comunidades, tomada de reféns e intimidação para preservar o controle territorial e espalhar o medo.
Ataques indiscriminados na comunidade de Kenscoff, que recentemente levaram a uma reunião de emergência do Conselho de Segurança, e incidentes que se seguiram em áreas rurais ilustram a brutalidade e a expansão geográfica da crise.
740 mil crianças deslocadas
No trimestre entre julho e setembro, o saldo da violência é considerado dramático, tendo registrado mais de mil mortes, incluindo mais de 650 membros de gangues. Mais de 100 pessoas foram vítimas de sequestro e existem índices alarmantes de violência sexual em meio à expansão de grupos de autodefesa.
Essa nova onda de insegurança nos últimos três meses deslocou mais de 17 mil pessoas, elevando o total de deslocados internos para quase 1,5 milhão. Desse número, mais de 740 mil são crianças.
A economia haitiana caminha para a sua sétima contração consecutiva em 2026, aprofundando uma vulnerabilidade social extrema em que as necessidades humanitárias superam largamente os recursos disponíveis.
ONU fez um apelo aos países para que mantenham a solidariedade e o engajamento político e financeiro
O Plano de Resposta Humanitária conta este ano com menos da metade dos fundos necessários. Sem um aumento no apoio internacional, o fosso entre as crescentes necessidades da população e a ajuda eficaz continuará a se alargar perigosamente.
Força de Supressão de Gangues
Apesar do cenário desafiador, os desenvolvimentos positivos incluem o aumento do financiamento do governo haitiano para a Polícia Nacional e as Forças Armadas do Haiti, além da expansão operacional da Força de Supressão de Gangues com o suporte do Gabinete de Apoio da ONU no Haiti.
Para as Nações Unidas, as operações de segurança por si só não bastam. Os avanços sustentáveis exigem uma abordagem abrangente liderada pelos haitianos que combine recuperação territorial e presença contínua do Estado.
Para esse propósito, houve iniciativas sugeridas que incluem uma atuação robusta de desarmamento, desmobilização e reintegração, com atenção especial às crianças recrutadas por gangues.
O enviado da ONU fez um apelo aos países para que mantenham a solidariedade e o engajamento político e financeiro, contribuindo para o Fundo Fiduciário da Força de Supressão de Gangues e para o Fundo de Dividendo de Paz para o Haiti.
O representante advertiu também que melhorias para os haitianos dependem exclusivamente de uma forte liderança nacional, de apoio internacional contínuo e de uma caminhada firme rumo à restauração das instituições democráticas.




