A ComissĂŁo Parlamentar de InquĂ©rito (CPI) da CĂąmara Municipal de Porto Alegre que investigou as causas e os responsĂĄveis pelo incĂȘndio da Pousada Garoa aprovou, na quinta-feira (26), o documento final da apuração iniciada em fevereiro.

Por sete votos a quatro, os integrantes da comissĂŁo aprovaram o relatĂłrio do vereador Marcos Felipi (Cidadania) que, embora tenha apontado ânegligĂȘncia graveâ por parte do proprietĂĄrio da rede de pousadas Garoa AndrĂ© Kologeski, afirmou nĂŁo ter encontrado âelementos suficientesâ para responsabilizar qualquer agente pĂșblico municipal.
O relatĂłrio contĂ©m os principais achados e conclusĂ”es da comissĂŁo acerca do incĂȘndio que matou 11 pessoas e deixou 15 feridas, no fim de abril de 2024.
AlĂ©m de atender a particulares, a pousada na regiĂŁo central da capital gaĂșcha tinha convĂȘnios com a Prefeitura de Porto Alegre, que encaminhava ao estabelecimento pessoas em situação de vulnerabilidade social, e com o Grupo Hospitalar Conceição, vinculado ao MinistĂ©rio da SaĂșde.
Entre as vĂtimas do incĂȘndio, seis eram pessoas em situação de rua, e cinco tinham se hospedado Ă s suas prĂłprias custas.
A rede de pousadas chegou a oferecer mais de 450 vagas em diferentes unidades espalhadas por 22 endereços, um dos quais, inclusive, jå tinha pegado fogo em 2022.
Para o relator, hĂĄ evidĂȘncias de que Kologeski sabia âdas condiçÔes estruturais inadequadas do imĂłvel, bem como da inexistĂȘncia das medidas mĂnimas de segurança exigidas por leiâ, como o fato, âcomprovadoâ, de que, meses antes do incĂȘndio, o empresĂĄrio se recusou a renovar os extintores da pousada por discordar dos valores cobrados. Segundo a perĂcia, os extintores recolhidos no local nĂŁo tinham a pressĂŁo exigida.
Ainda de acordo com Felipi, a edificação tinha inĂșmeros problemas estruturais, como quartos sem janelas, apenas uma escada em formato de caracol e uma Ășnica porta de entrada e saĂda. O estabelecimento tambĂ©m nĂŁo tinha alvarĂĄ de funcionamento, o Plano de Prevenção e Proteção Contra IncĂȘndios (PPCI), extintores em nĂșmero suficiente e sinalização de rotas de fuga em caso de emergĂȘncia.
âDiante da materialidade dos fatos e da comprovação das açÔes e omissĂ”es do proprietĂĄrio, esta comissĂŁo entende que hĂĄ elementos suficientes para o enquadramento do sr. AndrĂ© Kologeski em responsabilidade civil e criminal, com possibilidade de configuração de dolo eventual, uma vez que ele assumiu conscientemente o risco, como de fato se concretizouâ, conclui o relatĂłrio.
Em dezembro de 2024, Kologeski foi indiciado pela PolĂcia Civil, junto com o ex-presidente da Fundação de AssistĂȘncia Social e Cidadania (Fasc) Cristiano Roratto, e a fiscal de serviços da fundação PatrĂcia MĂŽnaco SchĂŒler, responsĂĄvel por acompanhar a execução do contrato/convĂȘnio de cerca de R$ 2,70 milhĂ”es que a Fasc mantinha com a rede de pousadas Garoa.
De acordo com o MinistĂ©rio PĂșblico estadual, no momento do incĂȘndio, cuja real origem a PolĂcia Civil nĂŁo identificou, havia 32 pessoas hospedadas na unidade da Avenida Farrapos por meio do contrato entre a Fasc e a rede de pousadas Garoa.
Para o relator da CPI, Marcos Felipi, nĂŁo hĂĄ elementos suficientes para demonstrar que Roratto, PatrĂcia ou outros agentes pĂșblicos poderiam ter feito qualquer outra ação âsuficiente para evitar a tragĂ©diaâ.
âDiversos depoimentos foram enfĂĄticos ao afirmar que os relatĂłrios de fiscalização apontando as condiçÔes precĂĄrias da Pousada Garoa nunca foram levados ao conhecimento do entĂŁo presidente da Fasc. Dessa forma, torna-se evidente que nĂŁo se poderia exigir do gestor da pasta uma conduta preventiva em relação a fatos dos quais nĂŁo tinha ciĂȘnciaâ, aponta o relator.
âQuanto Ă conduta da sra. PatrĂcia MĂŽnaco, merece destaque que, como fiscal de serviço, ela registrou formalmente sua preocupação com a segurança da Pousada Garoaâ, disse o relator, acrescentando que ânĂŁo era de sua responsabilidade a exigĂȘncia de documentação relacionada ao plano de prevenção e proteção contra incĂȘndioâ
Diante dos fatos, o relator conclui que a servidora ânĂŁo pode responder criminalmente por omissĂŁo imprĂłpria, haja vista que nĂŁo era seu dever agir sobre atos relacionados Ă prevenção e proteção de incĂȘndioâ.
O vereador sugeriu em seu relatĂłrio que, em caso de discordĂąncias, novas diligĂȘncias devem ser realizadas para aprofundar as investigaçÔes acerca das eventuais responsabilidades dos gestores do convĂȘnio.
DivergĂȘncia
Os quatro vereadores que divergiram do relatório aprovado, entre eles o presidente da CPI, Pedro Ruas (PSOL), apresentaram um voto por escrito, fundamentando suas conclusÔes.
De acordo com Ruas, ao contrĂĄrio da maioria dos membros da CPI, o grupo divergente entende que houve um homicĂdio doloso, pois os responsĂĄveis tinham consciĂȘncia de seus atos e assumiram o risco de provocar a morte de pessoas por âomissĂŁo criminosa e tolerĂąncia institucional ao riscoâ.
O voto divergente propĂ”e a responsabilização penal do prefeito de Porto Alegre, SebastiĂŁo Melo, por se tratar da mĂĄxima autoridade municipal; do ex-secretĂĄrio municipal de Desenvolvimento Social LĂ©o Voigt, bem como de Roratto, PatrĂcia, da fiscal de contratos Maristela Ribeiro de Medeiros e Kologeski, que se negou a prestar depoimento Ă CPI.
Procurada, a Prefeitura de Porto Alegre disse que nĂŁo vai se manifestar sobre o assunto por entender que “se trata de matĂ©ria exclusiva da CĂąmara Municipal”. O prefeito SebastiĂŁo Melo tambĂ©m nĂŁo se pronunciou.Â
A AgĂȘncia Brasil nĂŁo conseguiu contato com o dono da Pousada Garoa, e estĂĄ aberta a manifestaçÔes.




