Especialistas defendem diversificação nas parcerias comerciais


Pesquisadores da Ôrea de economia e de relações internacionais veem como positivos os investimentos de R$ 27 bilhões no Brasil anunciados pela China na segunda-feira (12). O valor abrange a indústria automotiva, energia renovÔvel, tecnologia, mineração, saúde, logística e alimentos.

HÔ ponderações, porém, de que o governo brasileiro deve investir mais na diversificação de parcerias com outros países, em um contexto crescente de tensões e conflitos comerciais impulsionados pelos Estados Unidos.

ā€œOs acordos sĆ£o importantes, uma vez que favorecerĆ£o principalmente quatro setores da economia brasileira: infraestrutura, energia, tecnologia e agronegócio. Esses quase R$ 30 bilhƵes estĆ£o entre os maiores investimentos chineses no mundo nos Ćŗltimos anos e um dos maiores que o Brasil jĆ” recebeu do exterior nas Ćŗltimas dĆ©cadasā€, avalia o professor de RelaƧƵes Internacionais da ESPM Roberto Uebel.

O anúncio dos investimentos foi feito no SeminÔrio Empresarial China-Brasil, em Pequim, com a participação do presidente Luiz InÔcio Lula da Silva, de autoridades brasileiras e chinesas, e de mais de 700 empresÔrios dos dois países.

ā€œĆ‰ um acordo interessante que estĆ” sendo construĆ­do com os chineses. Ɖ um movimento concreto na hora em que o [presidente dos EUA, Donald] Trump faz um tarifaƧo e cria situação de instabilidade nos mercados globais para vĆ”rias economiasā€, segundo a professora de economia da PontifĆ­cia Universidade Católica de SĆ£o Paulo (PUC-SP) Cristina Helena Mello.

ā€œImagino que Trump deva olhar para o Brasil com alguns cuidados, e a gente espera que haja possibilidade de nova negociação e aproximação com os Estados Unidos, de forma propositiva e nĆ£o de subordinaçãoā€.


BrasĆ­lia (DF), 17/05/2025 - Cristina Helena Mello, professora de economia da PUC-SP. Foto: Cristina Helena/Arquivo pessoal
BrasĆ­lia (DF), 17/05/2025 - Cristina Helena Mello, professora de economia da PUC-SP. Foto: Cristina Helena/Arquivo pessoal

Cristina Helena Mello, professora de economia da PUC-SP, considera interessante o acordo que estĆ” sendo construĆ­do com os chineses – Foto: Cristina Helena/Arquivo pessoal

Investimentos

Segundo a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), os investimentos chineses de R$ 27 bilhões devem ser direcionados da seguinte forma:

  • R$ 6 bilhƵes da montadora de veĆ­culos GWM para expansĆ£o de suas operaƧƵes e exportaƧƵes para a AmĆ©rica do Sul e MĆ©xico;
  • R$ 5 bilhƵes da Meituan, que promete gerar 100 mil empregos indiretos no setor de delivery;
  • R$ 3 bilhƵes da CGN em um hub de energia renovĆ”vel no PiauĆ­;
  • R$ 5 bilhƵes da Envision na criação do primeiro Parque Industrial Net-Zero da AmĆ©rica Latina;
  • R$ 3,2 bilhƵes da Mixue, com previsĆ£o de 25 mil empregos atĆ© 2030 com abertura de lojas de sucos e outras bebidas;
  • R$ 2,4 bi da Baiyin, com a aquisição da mina de cobre Serrote em Alagoas;
  • R$ 1 bilhƵes da DiDi, em infraestrutura de recarga para veĆ­culos elĆ©tricos;
  • R$ 650 milhƵes da Longsys em semicondutores;
  • R$ 350 milhƵes da parceria da Nortec QuĆ­mica com trĆŖs empresas chinesas no setor farmacĆŖutico.

RelaƧƵes comerciais

De acordo com a Apex, 4,5% de tudo que a China importa sai do Brasil. E 25% de tudo o que o Brasil importa vem da China. O paƭs asiƔtico Ʃ o principal parceiro brasileiro. Em 2024, o comƩrcio entre os paƭses atingiu quase US$ 160 bilhƵes.

Foram US$ 94,4 bilhões em exportações brasileiras e US$ 63,6 bilhões em importações, um superÔvit de US$ 30,7 bilhões, 41,4% do saldo comercial total do Brasil. 

O país é o maior fornecedor para a China de produtos essenciais como soja, carnes bovina e de aves, celulose, algodão e açúcar.

ā€œSeria importante que a gente melhorasse o perfil daquilo que a gente exporta para a China. Exportamos produtos primĆ”rios, da agricultura e da extrativa mineral. HĆ” pouco espaƧo para a entrada de produtos manufaturados brasileiros. Acho que isso Ć© um ponto de atençãoā€, alerta a economista da PUC-SP Helena Mello.

ā€œTambĆ©m precisamos muito desenvolver a capacidade de logĆ­stica brasileira de escoamento de produtos para exportação. Isso nos garantiria posição de lideranƧa em alguns mercados que hoje estĆ£o concentrados nas mĆ£os dos Estados Unidos e outros mercados que nós competimos, mercados de grĆ£os e de proteĆ­na animalā€, complementa.


Brasƭlia (DF), 17/05/2025 - Roberto Uebel, Professor de RelaƧƵes Internacionais da ESPM. Foto: Roberto Uebel/Arquivo pessoal
Brasƭlia (DF), 17/05/2025 - Roberto Uebel, Professor de RelaƧƵes Internacionais da ESPM. Foto: Roberto Uebel/Arquivo pessoal

Professor de relaƧƵes internacionais Roberto Uebel alerta que Brasil precisa ter muito cuidado ao se aproximar da China nesse contexto de guerra tarifĆ”ria – Foto: Roberto Uebel/Arquivo pessoal

Para o professor de relações internacionais Roberto Uebel, é importante que o Brasil valorize as relações comerciais com a China, mas mantenha o histórico de diversificação de parcerias.

ā€œO Brasil precisa ter muito cuidado ao se aproximar da China nesse contexto de guerra tarifĆ”ria, de nĆ£o prejudicar as relaƧƵes com os Estados Unidos. Precisa continuar diversificando parcerias para reduzir a dependĆŖncia nĆ£o só com os Estados Unidos, mas tambĆ©m com a China. Parcerias com o sudeste asiĆ”tico, ƍndia, JapĆ£o. Esses dois Ćŗltimos, que o presidente Lula visitou no comeƧo do anoā€, defende Uebel.

A lógica é compartilhada pelo professor Luís Renato Vedovato, da Universidade de Campinas (Unicamp).

ā€œĆ‰ muito importante que o Brasil vĆ” por um caminho seguro, se afastando das instabilidades que se colocam no horizonte. Por isso, a aproximação do Brasil com a China Ć© sempre bem relevante. Como Ć© importante o acordo do Brasil com o Mercosul e a UniĆ£o Europeia. Quanto mais irrigado estiver o paĆ­s comercialmente, mais resiliĆŖncia ele terĆ” para enfrentar o futuroā€, avalia Vedovato.



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