Marina Silva atribui aumento das queimadas a incĂȘndios criminosos e seca extrema – NotĂ­cias


02/07/2025 – 16:13  
‱   Atualizado em 02/07/2025 – 20:53

Vinicius Loures /CĂąmara dos Deputados

Marina Silva foi ouvida na ComissĂŁo de Agricultura

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, atribuiu o aumento das queimadas no Brasil a incĂȘndios criminosos e Ă  seca extrema, em audiĂȘncia pĂșblica na ComissĂŁo de Agricultura, PecuĂĄria, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da CĂąmara dos Deputados, nesta quarta-feira (2). Com sete horas de duração, a audiĂȘncia foi marcada por clima tenso, e a ministra considerou que foi alvo de vĂĄrias grosserias e que foi “terrivelmente desrespeitada” por deputados.

“De fato, nĂłs tivemos em 2024 um aumento dos incĂȘndios no Brasil. Esse aumento de incĂȘndio se deu em função de um extremo climĂĄtico e nĂŁo afetou apenas o Brasil, afetou o mundo inteiro”, afirmou a ministra. “Qualquer pessoa que nĂŁo seja negacionista sabe que a seca com baixa precipitação, temperatura alta, perda de umidade potencializa os incĂȘndios”, completou.

Ela observou que muitos incĂȘndios foram provocados de forma criminosa, citando notĂ­cia segundo a qual os inquĂ©ritos da PolĂ­cia Federal sobre incĂȘndios criminosos triplicaram em 2024. “Ou seja, nĂłs tĂ­nhamos ali uma retroalimentação perversa: a seca extrema, incĂȘndios criminosos, materiais a ponto de combustĂŁo”, salientou. 

Conforme a ministra, as providĂȘncias tomadas pelo ministĂ©rio incluĂ­ram articulação com os governadores, aumento de 30% de brigadistas nas operaçÔes do Ibama e do ICMBio em relação ao governo anterior; e aumento de recursos para combater o problema.

Ela estima em R$ 1,5 bilhĂŁo o valor destinado ao combate desses incĂȘndios, frente a menos de R$ 400 milhĂ”es no governo Bolsonaro. “Fizemos uma verdadeira força-tarefa no PaĂ­s para evitar uma situação de completo descontrole”, garantiu. 

Controvérsia sobre desmatamento
Presidente da comissĂŁo e autor do requerimento de audiĂȘncia, o deputado Rodolfo Nogueira (PL-MS) afirmou que, sob a gestĂŁo de Marina Silva no Meio Ambiente, o desmatamento na AmazĂŽnia aumentou 482%. “As queimadas bateram recorde, e sua resposta tem sido o silĂȘncio ou a burocracia”, criticou. 

Vinicius Loures/CĂąmara dos Deputados

Rodolfo Nogueira, presidente da comissĂŁo

“Aqui, a senhora trouxe uma explicação para as queimadas do Brasil jogando a culpa em SĂŁo Pedro, e o MinistĂ©rio do Meio Ambiente nada faz diante do crescimento das queimadas e do desmatamento, desmatamento este praticamente liberado pelo ‘seu’ Ibama para construir a estrada do COP30. Vergonhoso, ministra”, afirmou Nogueira.

“Que ironia cruel, um evento climĂĄtico internacional sendo viabilizado Ă  custa de desmatamento em plena floresta AmazĂŽnica”, disse ainda o parlamentar, sobre a construção de uma rodovia na AmazĂŽnia para receber a ConferĂȘncia das NaçÔes Unidas sobre Mudanças ClimĂĄticas de 2025 (COP30).

AçÔes contra desmatamento
A ministra rebateu. “O Ibama aumentou sua capacidade de fiscalização em 96%, o ICMBio aumentou sua capacidade de fiscalização em mais de 200%, nĂłs aumentamos os nossos orçamentos, fizemos concursos, temos inĂșmeras operaçÔes, milhares de operaçÔes quando envolve terra indĂ­gena, desmatamento, exploração de madeira”, enumerou Marina.

“Foi graças a esses esforços, sob orientação do presidente Lula, que tem compromisso de desmatamento zero atĂ© 2030, que nĂłs tivemos o resultado de redução do desmatamento de 46% na AmazĂŽnia nos dois primeiros anos e de 32% no Brasil inteiro nos dois primeiros anos de governo do presidente Lula”, completou Marina Silva. Nesses dois anos, segundo ela, o agronegĂłcio cresceu 15% e a renda capita cresceu cerca de 11%.

A ministra acrescentou que houve retomada do plano de combate ao desmatamento que o governo anterior tinha abandonado, e retomada do Fundo AmazĂŽnia, que ficou desativado durante quatro anos.

Ainda conforme ela, na AmazĂŽnia, a queda acumulada dos alertas de desmatamento em junho de 2025, comparada a junho de 2022, foi de 65% (menor Ă­ndice para junho desde 2015). “Pela primeira vez, temos uma situação em que o desmatamento por incĂȘndio [52%] tem sido maior do que o desmatamento por corte raso [48% das ĂĄreas desmatadas]”, informou ainda.

Sobre a estrada para a COP30, a ministra explicou que nĂŁo Ă© o Ibama quem licencia a estrada, e sim a Secretaria Estadual de Meio Ambiente do ParĂĄ, e sugeriu aos deputados que recorram a essa secretaria para explicaçÔes, caso discordem da estrada. “SĂŁo 13 km, um pequeno trecho, e pela lei ambiental consolidada vocĂȘ atĂ© pode ter uma licença dentro de uma ĂĄrea protegida, desde que atendendo os regramentos estabelecidos”, informou.

Confisco de gado
Rodolfo Nogueira criticou ainda o confisco de mais de 9 mil cabeças de gado pelo Ibama “de forma arbitrĂĄria, sem clareza dos critĂ©rios, sem respeito Ă  propriedade privada, sem diĂĄlogo com os produtores”.

Ele sugeriu o investimento em programas de regularização, orientação e apoio tĂ©cnico ao produtor. “Criminalizar quem produz nĂŁo Ă© polĂ­tica pĂșblica; Ă© perseguição ideolĂłgica”, opinou. Para ele, o produtor rural tem sido tratado como inimigo pelo governo.

Além disso, o presidente da comissão criticou a falta de iniciativas do ministério para combater a invasão de javalis às lavouras. 

Defesa do Ibama
A ministra defendeu a atuação do Ibama e disse que apenas 2,6% dos imóveis rurais concentram 60% das irregularidades e que o confisco de gado só ocorre em propriedades com operaçÔes comprovadamente fora da lei, depois de alerta e aplicação de multas. Conforme a ministra, hå decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) respaldando as açÔes.

“NĂŁo hĂĄ como vocĂȘ cumprir com a função, numa cultura de muitos crimes ambientais que vĂŁo sendo praticados em relação ao desmatamento, Ă  exploração de madeira, a garimpo e a incĂȘndios criminosos, se o agente pĂșblico vai lĂĄ e nĂŁo cumpre com sua função institucional”, avaliou. Ela observou ainda que quem se sente prejudicado tem a possibilidade de recorrer em relação Ă  penalidade aplicada.

Sobre a invasĂŁo de javalis nas lavouras, a ministra disse que o MinistĂ©rio do Meio Ambiente estĂĄ fazendo um plano nacional de prevenção, controle e monitoramento do javali. “NĂłs estamos fomentando a pesquisa, a avaliação de eficiĂȘncia dos mĂ©todos para fazer esse manejo adequado e estamos fazendo estĂ­mulos a novos protocolos de manejo. Os animais nĂŁo devem servir de alvo para aqueles que gostam de treinar tiros, tem um cĂłdigo de Ă©tica que precisa ser observado”, acrescentou.

AcusaçÔes
O deputado Evair Vieira de Melo (PP-ES), que tambĂ©m pediu a audiĂȘncia, acusou a ministra de ser “adestrada” e usar a mesma tĂĄtica das Forças Armadas RevolucionĂĄrias da ColĂŽmbia (Farc) e dos grupos terroristas palestino Hamas e libanĂȘs Hezbollah. AlĂ©m disso, acusou Marina Silva de ser incoerente, de ser mal-educada e deselegante ao responder o presidente da comissĂŁo.

O parlamentar disse ainda para Marina Silva pedir ajuda da assessoria do ministĂ©rio para avaliar o Plano Safra. “Ministra, desculpa a senhora, eu nĂŁo vou exigir da senhora o conhecimento profundo de economia”, disse. “EntĂŁo, peça a assessoria, nĂŁo sei se ela tem assessoria de economia no ministĂ©rio, para ajudar a senhora a interpretar, vocĂȘ vai ver que Ă© uma grande armadilha. É o maior anĂșncio, anote aĂ­, e vai ser a menor entrega”, afirmou.

Segundo Evair Vieira de Melo, na gestĂŁo de Marina Silva houve o maior recorde de queimadas da Ășltima dĂ©cada. Ele acusou a ministra de falar inverdades, de adotar um discurso que “vale para um lado e nĂŁo vale para outro”, e de ir muito ao exterior e “andar pouco pelo Brasil”. 

Resposta
A ministra, por sua vez, disse que se sentiu “terrivelmente agredida” e que nas falas dos deputados na comissĂŁo houve muito machismo e racismo. “Eu fiz uma longa oração. E eu pedi a Deus que me dessa muita calma, muita tranquilidade, porque eu sabia que depois do que aconteceu na CĂąmara Alta [Senado] deste PaĂ­s, aqueles que gostam de abrir a porteira para o negacionismo, para a destruição do meio ambiente, para o machismo, para o racismo, depois do que aconteceu ali, as  pessoas iam achar muito normal fazer o que estĂĄ acontecendo aqui no nĂ­vel piorado, mas acho que Deus me ouviu e eu estou em paz”, destacou.

“Eu estou em paz, porque tem uma palavra que eu repito sempre que eu aprendi com o apĂłstolo Paulo, que diz o seguinte: ‘É preferĂ­vel sofrer injustiça do que praticar uma injustiça’. E eu prefiro sofrer injustiças do que praticĂĄ-las, porque,  quando vocĂȘ pratica uma injustiça, pode ter certeza de que um dia a reparação virĂĄ. Quando vocĂȘ Ă© injustiçado, a justiça virĂĄ”, completou.

Os deputados TĂșlio GadĂȘlha (Rede-PE), TalĂ­ria Petrone (Psol-RJ), JoĂŁo Daniel (PT-SE) e Juliana Cardoso (PT-SP), entre outros, defenderam a ministra e prestaram solidariedade a ela. 

 

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Reportagem – Lara Haje
Edição – Wilson Silveira



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