Especialistas e entidades do setor de petróleo apontam que os aumentos abusivos nos preƧos dos combustĆveis pelas distribuidoras – em SĆ£o Paulo, hĆ” relatos de postos vendendo o litro de gasolina a R$ 9 – nĆ£o se devem apenas Ć instabilidade no cenĆ”rio internacional.

Para analistas, a privatização da BR Distribuidora eliminou o controle estratĆ©gico do Estado sobre a cadeia de fornecimento, deixando o mercado Ć mercĆŖ de reajustes abusivos que ignoram os valores praticados nas refinarias. Sem a estrutura verticalizada que ia “do poƧo ao posto”, o Brasil perdeu a ferramenta institucional necessĆ”ria para frear a especulação em momentos de crise, avaliam especialistas ouvidos pela AgĆŖncia Brasil.
O alerta da venda de gasolina a R$ 9 “mesmo sem reajustes equivalentes nas refinarias” partiu de Ticiana Alvares, diretora tĆ©cnica do Instituto de Estudos EstratĆ©gicos de Petróleo, GĆ”s Natural e BiocombustĆveis (Ineep). Segundo nota publicada pela Federação Ćnica dos Petroleiros (FUP), postos em SĆ£o Paulo estĆ£o elevando preƧos de forma desproporcional, mesmo semĀ aumentosĀ por parte da Petrobras.
Para a FUP, o conflito no Oriente MĆ©dio ā intensificado no final de fevereiro ā tem servido de pretexto para que distribuidoras e revendedoras apliquem margens de lucro excessivas.
āAs distribuidoras e revendedoras aumentaram os preƧos dos combustĆveis. [O valor] chega na bomba para o consumidor final com acrĆ©scimo em torno de 40%ā, calcula o coordenador-geral da FUP, Deyvid Bacelar, em entrevista Ć AgĆŖncia Brasil.
PolĆtica de preƧos diferenciada
Segundo Bacelar, a majoração de preƧos – que prejudica os consumidores e pode impactar na inflação – ocorre porque foram privatizadas as subsidiĆ”rias da Petrobras que atuavam na distribuição de combustĆveis (BR Distribuidora e a LiquigĆ”s).
āNós tĆnhamos uma Petrobras que era bem mais integrada e verticalizada do que Ć© hoje. Era a antiga empresa do poƧo ao posto,ā afirmou o sindicalista.
āUma companhia petrolĆfera que faz exploração e produção de petróleo, e tambĆ©m transporte, refino, distribuição e comercialização dos derivados desse petróleo, consegue praticar polĆtica de preƧos diferenciadaā, compara Bacelar ā favorĆ”vel Ć verticalização na Petrobras de todas etapas de fornecimento de petróleo.
A anĆ”lise Ć© compartilhada pela academia. Para Geraldo de Souza Ferreira, professor de Engenharia de Petróleo da Universidade Federal Fluminense (UFF), a retirada de uma empresa pĆŗblica de um setor tĆ£o vital retira do Estado suas “ferramentas institucionais” de intervenção. āQuando se retira uma empresa pĆŗblica de determinado setor da cadeia produtiva, o Estado deixa de ter ferramentas institucionais para fazer algum tipo de intervenção.ā
Para Souza Ferreira, a atuação estatal no setor de petróleo é estratégica.
āO petróleo e seus derivados sĆ£o importantes para seguranƧa energĆ©tica do paĆs e para manutenção de vĆ”rias outras atividades. Esses produtos sĆ£o fundamentais para a sociedade. EntĆ£o, tem que ter um certo nĆvel de controle.ā
O especialista ainda assinala que āuma empresa pĆŗblica Ć© orientada por sua função social. JĆ” as empresas privadas sĆ£o orientadas para o lucro, para o retorno financeiro.ā
Na Ćŗltima quarta-feira (11), a empresa Vibra Energia S.A que comprou a BR Distribuidora anunciou lucro lĆquido de R$ 679 milhƵes em 2024. āNossos resultados financeiros e operacionais comprovam a robustez e a capacidade de execução da companhia. Tivemos crescimento consistente de margens a cada trimestre do anoā, destacou Ernesto Pousada, CEO da Vibra, em comunicado da empresa.
Sem consulta ao Congresso
A Petrobras perdeu o controle da BR Distribuidora em julho de 2019, quando iniciou a privatização da antiga subsidiĆ”ria. A privatização total foi concluĆda dois anos depois. Naquele perĆodo, sob o governo do entĆ£o presidente Jair Bolsonaro, a diretoria da Petrobras defendia que a empresa deveria focar na produção e exploração de óleo e gĆ”s, e abrir mĆ£o da distribuição de combustĆvel.
A venda das empresas subsidiÔrias da Petrobras foi feita sem consulta ao Congresso Nacional, de acordo com o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 5624.
Conforme decisĆ£o da Corte, em carĆ”ter liminar de junho de 2019, āa alienação do controle acionĆ”rio de empresas pĆŗblicas e sociedades de economia mista exige autorização legislativa e licitaçãoā, mas āa exigĆŖncia de autorização legislativa, todavia, nĆ£o se aplica Ć alienação do controle de suas subsidiĆ”rias e controladas. Nesse caso, a operação pode ser realizada sem a necessidade de licitação, desde que siga procedimentos que observem os princĆpios da administração pĆŗblica inscritos no Artigo 37 da Constituição, respeitada, sempre, a exigĆŖncia de necessĆ”ria competitividade.ā
Corte de tributos e pagamento de subvenƧƵes
Para conter aumento no preƧo dos combustĆveis, o governo zerou as alĆquotas de Programa de Integração Social/Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (PIS/Cofins) sobre o diesel, e reduzindo o preƧo em cerca de R$ 0,32 por litro e editou a Medida Provisória nĀŗ 1.340 que autoriza a concessĆ£o de mais R$ 0,32 por litro como subvenção econĆ“mica para a comercialização de óleo diesel.
No total, são R$ 0,64 por litro cobrados a menos para diminuir o impacto no bolso do consumidor da variação do preço do petróleo no mercado.
O preço do diesel é formado pelo custo do produto junto à Petrobras (45,5% do preço médio na bomba do posto); tributo estadual (19%); custo de distribuição e revenda (17,2%); adição de biodiesel (13%). O peso da tributação da PIS/Cofins era de 5,2%.
Tendo em perspectiva o comportamento do mercado internacional de petróleo, o governo federal criou uma sala de monitoramento para acompanhar as condiƧƵes do de comercialização de combustĆveis fora e dentro do Brasil.
Na quinta-feira (12), o governo federal se reuniu com as empresas distribuidoras de combustĆvel que sugeriram que a Petrobras amplie a importação de diesel para garantir abastecimento e estabilidade de preƧos no paĆs.
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