Ao buscar uma maneira de debater o assédio moral e a violência de gênero no ambiente de trabalho, um grupo de pedagogos da Universidade do Estado de São Paulo (USP) incluiu, na sua apostila de aprendizado da Educação de Jovens e Adultos (EJA), uma forma divertida de conscientização.

Em 2026, a partir da apostila PrĆ”ticas de Alfabetização e de MatemĆ”tica ā anos iniciais do ensino fundamental, alunos da EJA puderam conhecer a Engenheira EugĆŖnia, uma personagem criada em 2013 pelo coletivo de mulheres da Federação Interestadual de Sindicato de Engenheiros (Fisenge). Ela surgiu para dar voz Ć s mulheres da profissĆ£o e suas lutas por direitos trabalhistas.
Para a diretora do coletivo de mulheres da Fisenge, uma das cocriadoras do projeto, Simone BaĆa, a demanda era necessĆ”ria.
āEm uma categoria que atĆ© entĆ£o, hoje em dia tem mudado um pouco, mas naquela Ć©poca ainda era muito masculina, era um massacre, a quantidade de homens era muito maior do que agora. Nós tĆnhamos que ter um instrumento, uma maneira fĆ”cil de transmitir a coisaā, diz.
A maneira foi criar uma série de tirinhas em quadrinhos publicadas no site da federação, explorando temas como assédio moral, violência contra a mulher, instalação de banheiro feminino em canteiros de obras e no campo, combate ao racismo e à LGBTQIAPNfobia.
Segundo Simone BaĆa, Ć© papel dos sindicatos criar pontes de diĆ”logo com a sociedade, e a educação Ć© uma ferramenta essencial para essa transformação. E parte desse trabalho chegou atĆ© a EJA, pensando na conscientização dos alunos sobre violĆŖncia de gĆŖnero no ambiente de trabalho.
Educação
No quadrinho escolhido, a Engenheira Eugênia sofre assédio moral do seu chefe durante o trabalho e é desqualificada por ele por ser mulher. A proposta da atividade vai além do conteúdo: convida estudantes a reconhecerem essas situações e a refletirem, por meio do diÔlogo, sobre respeito, igualdade e direitos no ambiente profissional.
E não é a única interação entre o projeto do coletivo e propostas em sala de aula. A iniciativa Viaduto literÔrio apresentou os quadrinhos para crianças do Morro da Providência, na região central do Rio de Janeiro, buscando conscientizar as crianças sobre oportunidades e representatividade.
āAs professoras mostraram e aĆ perguntaram, o que Ć© um engenheiro? O que Ć© uma engenheira? Eles disseram que era uma profissĆ£o de gente rica, que nĆ£o era para elesā, ressaltou Simone.
Nos quadrinhos, a personagem principal é uma mulher negra, engenheira com 15 anos de profissão, mãe de dois filhos e divorciada.
Para o coletivo, era importante trabalhar a representatividade desde o inĆcio, quebrando estereótipos ligados Ć Ć”rea da engenharia e gerando identificação com a realidade das mulheres que fazem a ājornada duplaā, conciliando o emprego remunerado com as atividades domĆ©sticas.
āTira essa coisa de que a engenharia Ć© só uma profissĆ£o de gente rica e que nĆ£o se preocupa com os pobres. VocĆŖ traz para a questĆ£o realmente social, que Ć© a nossa preocupação enquanto sindicato de federaçãoā, destacou.
ConquistasĀ
A personagem Engenheira Eugênia jÔ foi traduzida para o inglês, apresentada pelo coletivo em fóruns sindicais internacionais, virou animação e também ganhou espaço em tirinhas de marca pÔgina. Em 2016 a iniciativa ganhou o Prêmio Anamatra (Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho) de Direitos Humanos na categoria cidadã em comunicação sindical.
āA gente mantĆ©m esse trabalho porque nós entendemos que Ć© uma forma importante de comunicação, de discussĆ£o, e a gente quer uma sociedade melhor. EntĆ£o entendemos que ela pode contribuir com isso tambĆ©m. Discutir Ć© o primeiro passo para mudar alguma coisaā, disse Simone BaĆa.
*EstagiÔria sob supervisão da jornalista Mariana Tokarnia.




