Saiba como redes de ensino que proĆ­bem celulares aplicam as regras


Após a aprovação pelo Congresso Nacional, a lei que proíbe o uso dos celulares nas escolas públicas e privadas, tanto nas salas de aula quanto no recreio e nos intervalos, foi sancionada esta semana pelo presidente Luiz InÔcio Lula da Silva. Os aparelhos seguem sendo permitidos para o uso pedagógico, ou seja, quando autorizado pelos professores como instrumento para a aula.

As regras não são novidade para a cidade do Rio de Janeiro, que desde agosto de 2023 um decreto proíbe o uso dos aparelhos nas escolas. Também não é novidade no CearÔ, que desde 2008 tem legislação que restringe o uso do aparelho em salas de aula. 

A Agência Brasil conversou com representantes da respectivas secretarias de Educação para saber como tem sido a aplicação das regras nas redes de ensino.

No Rio de Janeiro, segundo o secretĆ”rio de Educação do municĆ­pio, Renan Ferreirinha, a proibição do uso dos aparelhos jĆ” mostra resultados nas escolas. ā€œTem uma percepção dos diretores dizendo para a gente como os recreios voltaram a ficar mais barulhentos, como voltaram a ter mais pegada de escola. O que se estava observando era que os recreios estavam ficando com as crianƧas isoladas nas suas próprias telas sem ter uma interação uns com os outros. Isso Ć© muito sĆ©rio. A gente voltou a ter essa maior interação na hora do recreioā€, disse.


Rio de Janeiro (RJ) 18/01/2025 - Renan Ferreirinha, redes de ensino que jĆ” proĆ­bem celulares compartilham experiĆŖncias
Foto: PSD/Brasília/Divulgação
Rio de Janeiro (RJ) 18/01/2025 - Renan Ferreirinha, redes de ensino que jĆ” proĆ­bem celulares compartilham experiĆŖncias
Foto: PSD/Brasília/Divulgação

SecretĆ”rio de Educação, Renan Ferreirinha, diz que proibição do uso dos aparelhos jĆ” mostra resultados nas escolas do Rio – Foto: PSD/BrasĆ­lia/Divulgação

O secretĆ”rio explica que as escolas tĆŖm autonomia para definir a melhor maneira para colocar as medidas em prĆ”tica. ā€œOu [o estudante] chega na escola e guarda o celular na sua mochila, o que tem funcionado super bem atravĆ©s de um processo de conscientização, de um processo muito forte de diĆ”logo tambĆ©m com toda a comunidade escolar. Ou algumas escolas tambĆ©m recolhem os celulares e devolvem depois. A gente apoia essas medidas, mas isso varia do que cada escola consegue fazer dentro do seu combinadoā€.

Em relação Ć s sanƧƵes a quem descumpre a regra, Ferreirinha diz que as escolas contam com instrumentos e protocolos. “Imagina um aluno que estĆ” falando na sala de aula, que nĆ£o para quieto, ou outro que estĆ” dormindo, o que vocĆŖ faz? O professor nĆ£o chama atenção? Se for de novo, adverte o aluno, se for pela terceira vez, manda para a direção escolar. A direção escolar chama o responsĆ”vel. Na verdade, as escolas estĆ£o muito mais preparadas para lidar com essas situaƧƵes do que a gente imagina. O que a gente precisa Ć© de um grande combinado social, que diga que isso aqui nĆ£o pode acontecer e que dĆŖ o respaldo para as escolas poderem implementar e chamar as famĆ­lias para nos apoiarem nisso”.

Ferreirinha, que como deputado federal foi relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados do projeto de lei que originou a lei sancionada esta semana, explica que a intenção não é afastar a tecnologia da escola, mas estimular que ela seja usada para fins de aprendizagem.

ā€œA gente acha que a tecnologia pode ter um papel fundamental na educação. Agora, ela tem que ser usada de forma consciente e responsĆ”vel. Tem que ter hora para tudo, porque senĆ£o, em vez de ser uma aliada, ela passa a ser uma inimiga do processo educacionalā€, defende.Ā 

ā€œO que a gente nĆ£o pode achar normal Ć© o aluno estar com o seu celular no meio da aula, usando, vendo um videozinho no Tik Tok, jogando o jogo do tigrinho, enquanto o professor estĆ” tentando dar aula. Isso nĆ£o pode ser considerado normalā€, acrescenta.

Ferreirinha ressalta que a nova lei ā€œcoloca o Brasil no grupo seleto dos paĆ­ses que jĆ” conseguiram ter legislaƧƵes nacionais e enfrentam esse desafioā€.Ā 

A FranƧa, Espanha, GrĆ©cia, Dinamarca, ItĆ”lia e Holanda jĆ” tĆŖm legislaƧƵes que restringem o uso de celular em escolas. ā€œEsse Ć© um assunto que comeƧa e tem o protagonismo da educação pĆŗblica, demonstrando que dĆ” para ter educação pĆŗblica na vanguarda, de qualidadeā€, elogia.

Lei antiga

No CearÔ, a Lei 14.146, de 2008, proíbe tanto a utilização de celulares nas escolas durante os horÔrios de aulas quanto de aparelhos jÔ ultrapassados, como walkman, discman, MP3 player, MP4 player, iPod, bip, pager.

De acordo com a secretĆ”ria executiva do Ensino MĆ©dio e Profissional da Secretaria de Educação do Estado do CearĆ”, Jucineide Fernandes, nem todas as escolas conseguiram cumprir a medida, ā€œque acabou sendo deixada de ladoā€.

Após o decreto do Rio de Janeiro, em 2024, o Ministério Público do Estado do CearÔ (MPCE) recomendou que a lei fosse cumprida, que escolas públicas e particulares orientassem os diretores das unidades de ensino para impedir o uso de aparelhos celulares e outros equipamentos semelhantes durante as aulas.


Rio de Janeiro (RJ) 18/01/2025 - Jucineide Fernandes, redes de ensino que jĆ” proĆ­bem celulares compartilham experiĆŖncias
Foto: Seduc/Divulgação
Rio de Janeiro (RJ) 18/01/2025 - Jucineide Fernandes, redes de ensino que jĆ” proĆ­bem celulares compartilham experiĆŖncias
Foto: Seduc/Divulgação

SecretĆ”ria executiva do Ensino MĆ©dio e Profissional do CearĆ”, Jucineide Fernandes, considera importante a proibição do uso de celular nas escolas – Foto: Seduc/Divulgação

ā€œNós enviamos, entĆ£o, uma recomendação Ć s escolas para que proibissem o uso do celular em sala de aulaā€, disse Jucineide Fernandes. E após a sanção da nova lei federal esta semana, ela disse que foi enviada uma nova orientação aos centros de ensino. ā€œAgora orientando que se convoque a comunidade escolar para a mudanƧa no regimento da escola, e que essa proibição seja acompanhada pela escola dentro das normas de seu regimento e que tambĆ©m se pense como vai se usar nos momentos de uso pedagógico esses recursos porque, na nossa rede, a gente distribui tablets e chips para os estudantesā€.

Também no CearÔ, cabe às escolas definir a melhor maneira de implementar as medidas. Caixas para guardar celulares e perda de pontos em avaliações são algumas das estratégias usadas para que estudantes não se distraiam nas salas de aula com os celulares.

Segundo a secretĆ”ria, para que a nova lei nĆ£o acabe sendo descumprida como ocorreu com a antiga, Ć© preciso um acompanhamento de perto por parte da secretaria e tambĆ©m que seja feita uma conscientização, como estĆ” previsto na nova lei. ā€œPrecisamos pensar nĆ£o só na proibição, mas tambĆ©m no que a própria lei prevĆŖ, como palestras, orientaƧƵes, pensar na questĆ£o da desinformação, da cultura digital, que inclusive faz parte do nosso currĆ­culo das escolas do tempo integralā€, explica.

Para Jucineide Fernandes, a proibição do uso dos celulares na escola, exceto para fins pedagógicos, Ć© uma medida importante. ā€œO uso de telas estĆ” muito generalizado, inclusive por nós, adultos. A gente acha que a proibição Ć© importante para o aluno se concentrar mais, para que o estudante possa tambĆ©m socializar com os demais, conversar. EntĆ£o, a gente acredita que a proibição vai trazer mesmo maior atenção, foco aos estudantes no perĆ­odo das aulasā€, defende.

Desafios de estrutura

A nova lei recebeu elogios, mas tambƩm foram levantados desafios enfrentados nas escolas que podem dificultar com que seja colocada em prƔtica.

No Rio de Janeiro, quem jÔ lida com a questão explica as dificuldades enfrentadas ao longo do último ano.


Rio de Janeiro (RJ) 18/01/2025 - Professor Diogo de Andrade, redes de ensino que jĆ” proĆ­bem celulares compartilham experiĆŖncias
Foto: Diogo de Andrade/Arquivo pessoal
Rio de Janeiro (RJ) 18/01/2025 - Professor Diogo de Andrade, redes de ensino que jĆ” proĆ­bem celulares compartilham experiĆŖncias
Foto: Diogo de Andrade/Arquivo pessoal

Professor Diogo de Andrade defende defende que norma deve ser acompanhado de medidas efetivas para que seja de fato implementada – Foto: Arquivo Pessoal

Segundo o coordenador geral do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Estado do Rio de Janeiro (Sepe), Diogo de Andrade, também professor da rede municipal, a implementação esbarra também nas condições encontradas nas escolas, onde muitas vezes falta estrutura e os professores precisam lidar com turmas lotadas.

ā€œOs desafios sĆ£o, principalmente, a estrutura para vocĆŖ garantir que os alunos nĆ£o usarĆ£o o celular em sala de aula. Isso significa que nĆ£o adianta nós termos uma lei que proĆ­ba o uso do telefone, se nós tivermos salas de aula lotadas em que o professor nĆ£o consegue ter acesso ao que estĆ” acontecendo, por exemplo, no fundo da sala de aula. EntĆ£o, quanto mais alunos por turma, menor Ć© a capacidade de o professor verificar se a lei estĆ” sendo cumpridaā€, alerta.

Para ele, o esforço para o cumprimento da lei deve envolver toda a estrutura educacional, desde a Secretaria Municipal de Educação, da Secretaria Estadual de Educação, às escolas.

ā€œA minha prĆ”tica Ć© avisar sempre no inĆ­cio da aula que nĆ£o pode usar o celular. E aqueles alunos que insistem em fazĆŖ-lo, a gente encaminha para a coordenação pedagógica, a gente encaminha para a direção, para que seja registrado, para que os pais sejam chamados. Mas Ć© muitas vezes um enxugar gelo, porque os adolescentes, e cada vez mais cedo as crianƧas chegam Ć  escola jĆ” com uma situação de vĆ­cio pelas redes sociais, vĆ­cios por jogos, atĆ© mesmo por apostas, por sites de apostas, que a atenção deles no aparelho, no virtual, a gente jĆ” percebe que eles nĆ£o olham para frente, eles olham para baixo o tempo todoā€.

Diogo de Andrade diz que agora, com a lei federal, as escolas terão mais um argumento para usar com os estudantes, mas defende que deve ser acompanhado de medidas efetivas para que a norma seja de fato implementada.

ā€œNós ainda temos uma dificuldade muito grande, que Ć©, a partir do momento que a gente diz ā€˜vocĆŖ nĆ£o pode usar o celular’, o profissional em sala de aula nĆ£o se sente Ć  vontade em pegar o celular do aluno, porque se o profissional pega o celular do aluno e aĆ­ o celular cai no chĆ£o e o aluno diz ā€˜o meu celular nĆ£o estava com a tela trincada’. E aĆ­? Quem paga por esse prejuĆ­zo? De maneira muito objetiva, falta estrutura ainda para que haja a garantia de que o celular nĆ£o seja usado na sala de aulaā€, reforƧa.

A lei

A lei sancionada pelo presidente Lula restringe o uso do celular em sala de aula e nos intervalos, para fins pessoais, mas hÔ exceções, como o uso para finalidade pedagógica, sob supervisão dos professores, ou em casos de pessoas que necessitem de apoio do aparelho para acessibilidade tecnológica ou por alguma necessidade de saúde. 

Um decreto presidencial, previsto para daqui a 30 dias, vai regulamentar a nova legislação, para que passe a valer jÔ no início do ano letivo, em fevereiro.



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